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As janelas são feitas de sol, de vento de maresia quente

De Ios a Santorini, a distância é toda azul. Do céu ao mar. De Ios a Santorini, o tempo é todo o mar Egeu e uma parte que é teu e corre para sul. De Ios a Santorini, dois pedaços de terra ligados pelo istmo de uma hora de caminho.

Comprei o bilhete mais barato de sempre

Sete euros! Ωραία! (Boa!) Pergunto à rapariga do posto de venda de bilhetes de todos os amigos & companhias, e as há muitas e de todos os tamanhos e carteiras, pelo que nunca terão grandes problemas para apanhar um ferry a partir dos principais limanis (portos) gregos, qual a razão de tal pechincha. Pois que é a companhia que dá esta possibilidade de ir no deck por este preço. Ai sim?? Hum, pois que venha a experiência. O pior que pode acontecer é o quê? É ir sentada no chão? Depois da gastroenterite e desidratação, nada me fará fraca! Pame!! (Vamos!!)

O porto

O porto é pequenino, pequenino, fazendo jus à ilha. Ferry vem, ferry vai. Não há muita gente, mas o tamanho e as chegadas e saídas corridas aceleram o movimento do ambiente. Sento-me no chão, aliviando a carga das costas, que porto após porto vai engordando. A cada passo, levo mais Grécia comigo… e junto-a à que trago dentro. É o meu melhor e mais bonito peso. Hoje, também conta bananas, maçãs e torradas para a minha cura. O sol das quase cinco da tarde morde-que-morde. Mais uma maçã e água. O meu melhor manjar e néctar das últimas 24 horas. O que os deuses me dão eu aceito.

Olho em redor. Não sou a única que tem por companhia uma mochila gigantone. Há um ou outro rapaz, bem novo, a fazê-lo. Nenhuma mulher. E ninguém de tamanho inferior ao da sua mochila… como eu.

Início da viagem Ios > Santorini

Paisagem feita de mar

“Thira – Santorini!!” – grita o polícia marítimo, rosto moreno, de maçãs salientes e rosadas, olho cor de mel, lábios finos. É para mim! O aviso, pois claro, que me faço a Thira! Levanto-me, água na mochila, mochila às costas, sigo a correr, que já se levanta o alçapão daquela que engole gente. Saímos com meia hora feita de atraso. Sigo para os meus aposentos ao ar livre plantados. Ali, bancos de jardim brancos enfileirados, sujos, quão sujo está o chão, mediados por mesas de ferro, igualmente sujas. Por teto, um toldo cor de laranja fazendo sombras. Sento-me ao lado na minha mochila. Que privilégio… As janelas são feitas de sol, de vento de maresia quente, e nas varandas de ar algumas pessoas seguem a paisagem feita de mar, feita de pequenos pontos de terra em ilha, sentadas em cadeira de plástico branco ou verde.

Avistam-se terras de Santorini

Já dá para ver que as suas entranhas raiadas de tons vermelhos e de areia são vulcânicas. Lá em cima, sustentada pela escarpa, Thira. Ao porto, ferries vêm, ferries vão, de tantas marcas, de tantos tamanhos. Nenhum, sei-o bem, com a minha vista para o mar. Ao mesmo tempo, vários ferries vomitam gente, eu sou uma delas, no porto mais cheio de tudo em que já estive. Porque no porto mais pequeno para tanta gente que já pisei. Carros, carrinhas, autocarros em modelo de táxi que distribuem turistas pela ilha, empresas privadas que nos perseguem oferecendo uma volta. Sigo um deles depois de lhe dizer que quero ir para Perissa, que ficaria a uns 20 minutos dali. Pergunto quanto me custará a volta. “Vinte euros”. O quê??? Obrigada! Vou para outra freguesia. Sigo a passos curtos, tanta é a gente que tenta um transporte para escalar o caminho íngreme até lá cima, tanto o comércio, cafés, esplanadas, lojas de souvenirs, postos de rent-a-car, muitos, com letreiros bem chamativos. Avisto os autocarros gregos KTEL à esquerda e sigo a certeza de que algum me levará a Perissa, ou a Thira e depois a Perissa. São cerca das sete da tarde.

A chegada a Santorini: 2004 versus 2018

Lembro-me do impacto que as ravinas, cujos braços se estendem por estradas-caracol feitas de autocarros, táxis, motos, transfers, gente, gente em procissão montanha acima, têm em mim. Em 2004, quando aqui aportei pela primeira vez, numa tarde de maio, no Athinios Limani, a confusão era mais agradável e o que mais impacto teve em mim foi o que ainda hoje reconheço nenhum outro povo tê-lo tão natural, a camaradagem. Um grupo de gente com cartazes a oferecer quarto, sítios para pernoitar. Íamos com pouco dinheiro, depois de uma viagem de 5 horas sentadas no chão do ferry, apinhado de gente de todos os recantos do mar.

À vez, eu e a Paula partilhávamos ora o chão de um dos seus muitos corredores, ora um espacinho na escada que dava para o andar inferior… Íamos sem sítio para ficar, assim fora no barco, assim fora na dormida. Conseguimos um quarto para duas por 15 euros/noite a uns 30 minutos a pé de Thira. A dona do hotel, de cabelos longos e morena, de pele queimada e raiada pelo sol, de riso e fala fáceis, levou-nos até à carrinha Ford branca. No meio de vinha e mais vinha, um caminho de terra batida para o hotel branco e azul, impecável e de piscina imponente.

“O vosso quarto fica ali nas traseiras, mas podem usar a piscina quando quiserem.”

Abre a porta de um portão de uma garagem e eis que dentro, enorme, um quarto com duas camas individuais e uma casa de banho. Tudo limpo, no espaço onde caberiam uns quatro carros.

No mesmo sítio de outrora, tudo diferente agora. É certo que agora levo mais dinheiro no bolso, um alojamento reservado, mais maturidade e vontade de aventura consciente. Aporto hoje, aqui, outra; tudo é gatilho para me transportar no tempo, catorze anos cheios depois. Sou Eu que aqui estou, mais ninguém em mim senão eu inteira. Mas a mesma miúda malina, reguila, cheia de vida! Malina… Saltou da caneta para o papel. Era assim que o meu avô Manuel Júnior me chamava muitas vezes. Outras tantas, Carlina. Ele sabia de que matéria era eu feita. Mas eu não. Assim seja, avô.

Me vou a Perissa!

São centenas de pessoas neste porto encostado ao mar, não fosse ele um porto, e empurrado pela terra. Daqui a 20 minutos, parte o bus KTEL para Thira e ali apanharei outro até ao abrigo dos próximos quatro dias. Por 2,20 euros!! Vou para Perissa, no sul da ilha, zona de areia e cisco pretos, para me refugiar do turismo desenfreado. Não foi sem receio que decidi voltar a Santorini. O que me espera tantos anos volvidos e tanta vida tragada?

“Nunca voltes aonde um dia foste deveras feliz.”

Não são minhas estas palavras, mas trago-as bem junto à porta do coração.

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