Centro de Ios

Ios | As 365 igrejas do ano

Chora

Devemos deixar que os sítios nos vivam, que nos levem, que nos questionem. Devemos ter também nós o ritmo das passadas dos locais. O batimento cardíaco é mais fraco, apesar do esforço gigante para qualquer ação debaixo de tantos graus de calor. É mais calmo. É mais calma a minha passada, a minha respiração e assim também é calmo o meu olhar, que sem pressas tem tempo de contar igrejas. Estou no ponto mais alto de Chora, centro antigo da ilha de Ios. Lá em baixo, todos os caminhos que me trouxeram.

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Deixei para trás o meu pequeno apartamento e iniciei percurso ténis ante ténis montanha acima. Fiz o caminho pedonal de tons pastel com formas de branco. Ainda não são dez da manhã, mas é preciso parar muitas vezes para repor o coração neste caminho sem sombras e de subida. É certo que te demorará a fazer, tenhas tu boa condição física ou não. Faz parte dos caminhos da Grécia que refreemos as nossas pressas feitas de nada. Desconfio até que este calor seja para nos fazer parar, para nos demorar o olhar nas coisas simples.

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Sento-me no banco de cimento colado à igreja, abeirada do vendaval quente pela sombra criada pela disposição do edifício sagrado. Bebo água. Cá em cima, no pico, há quatro igrejas ortodoxas. Levanto-me para as contar. Não contei quanto distam estas quatro igrejas, mas estou certa de que entre elas uma mesma distância. As três mais pequenas ficam no topo e por todas quatro passamos para chegar à mais elevada. São filhas da igreja maior que cá em cima fica em proteção das suas crias olhando por elas de um nível mais baixo. Cheguei à igreja-mãe e cirandei contemplando a paisagem. Ali, eu e um casal de meia-idade. Forasteiros.

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Kalimera

Sentei-me para comer uma barra de sementes de sésamo. Uma senhora de meia-idade, alta, forte, morena e segura, trazia as flores já mortas que alegraram o altar. Dá-me um Kalimera (bom dia) muito alegre e eu respondo com a mesma alegria, não com a mesma energia. Aproveito para lhe perguntar se posso subir até ao pico para ver as igrejas no meu ainda possível grego. “Sim, sim, faça favor! Só peço que não deixe lixo.” Um pequeno portão separava aquele patamar do pico e um aviso havia feito o casal mudar de ideias. Pede que não se trepe a rocha, mas isto não proíbe que se use o caminho estreito. É sempre bom falar com as gentes dali.

Cada igreja seu santo

Enquanto ali estive não subiu ninguém. Cada igreja seu santo e cada uma não leva mais do que um padre e seus noivos. Todas três há muito fechadas a ferros. A vista, essa não para de me desafiar em tons de azul, ilhotas cor de carvão, cujo calor faz delas brotar uma espécie de fumo. Lá em baixo mais igrejas. Contem-nas. Deste ponto, é possível contar cerca de dez. Alguém me dissera, julgo que o sr. do rent a car Acteon, que há na ilha tantas igrejas quantos dias tem um ano. Esta ilha é bem pequena. Possui cerca de 18 km de extensão e 10 km de largura e fica entre Naxos e Santorini. É de lá que eu venho, Naxos. É para lá que eu vou, Santorini. Nunca duvidei. Há pequenos pontos-brancos-que-são-igrejas por toda a ilha, em curvas de estrada, em abismos para o mar, ao lado da sombra da árvore, no meio da aridez da terra. Mas hoje eu ainda não sabia disso.

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Na rua que também é tua

Façam a via-sacra das várias igrejas que vão encontrar até ao topo. Comecem lá em baixo, na igreja principal de Chora, na praça ao lado das paragens dos autocarros KTEL. Daí para dentro e para cima, caminhem sem rumo pelas ruas estreitas de paredes brancas, de chão pastel com ondulações de branco tão briosamente pintado.

Acontece haver partes de caminho intransitáveis porque o chão está pintado de fresco debaixo do ar quente. Aqui mantém-se o chão com a mesma dedicação com que os gregos mantêm uma boa conversa. Lá em cima, está-se no céu. E, até lá, ruas abandonadas, sem dono. Ruas de gente dali com triciclos à porta e estendais de rua, na rua que também é tua. Quanto mais subimos mais genuíno é. Ruas de metro e meio que são também as varandas e as entradas das casas de quem ali vive; algumas mesmo por debaixo do morro da grande igreja que fica lá em cima. Rodopiei, andei em labirinto, tendo sempre por miragem apenas a igreja maior. As indicações para o pico são, uma vez mais, a prova do sentido de simplicidade e de prático dos gregos. De vez em quando, umas pinceladas nas paredes desenham uma igreja e uma seta indicando que é por aqui. Fico parada de sorriso aberto por causa de tal cenário… E sigo.

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Sou tudo eu e as ruas eu também

Não há muita gente na rua. E os que encontro são daqui. A grande parte dos de fora, jovens em festa, acabaram de chegar às suas camas e eu tenho toda a rua, todos os cantos para respirar. Sou tudo eu e as ruas eu também.

Os moinhos

Sigo para a zona dos moinhos. Deste lado, ainda menos gente. Idosos que se abeiram na sombra do que parece ser a junta de freguesia e os correios conversam. Cumprimento-os e sigo. As ruas estreitas, sempre, revelam estabelecimentos diversificados, alguns minimercados, arcadas de tetos de madeira que fazem sombras e de novo uma igreja. Vim parar à zona dos moinhos de vento sem rumo, indo apenas. Já estou para lá do centro. Aqui aonde mora o sossego do vento, que dá corda a um dos moinhos ainda vivo que é a casa de alguém.

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Steps Bar

À noite, a grande escadaria que me trouxe até aos moinhos deixa de ser branca para albergar almofadas coloridas, pelas quais se espraia gente trocando um copo ao sabor do vento quente e da luz das velas. É o Steps, de Jazz, Rock & Soul Music.

JAR Bar

De volta ao centro de Chora, parei num pequeno largo aonde desembocam algumas ruas estreitas. São as barrigas das antigas vilas da Grécia! Há neste largo vários cafés, mas os bancos típicos forrados a tapetes coloridos cativam-me. É o JAR bar. Almoço uma salada. Por aperitivo, um frappé frio, frio, típico café grego com gelo, duas coisas fundamentais para repor energia ao longo dos dias quentes. E são precisos vários num dia.

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