Túmulo de Homero

Ios | As pedras de Homero 

Chego de manhã cedo para levantar, finalmente, o meu carro no rent-a-car Acteon, para mim guardado há dois dias imprevistos. Não para me esconder do calor, que aqui não há grande jogo para dele fugir. Mas para te aproveitar, ó Ios, a ti, ao teu mar de azul-turquesa, quente, limpo, meigo, sempre tranquilo, porque às 16h30 salto para a barriga do ferry que me levará ao porto de Santorini. Faz-te a ela e mune-te de hidratação. Mas o tempo, esse, muito incerto.

No caminho do poeta

Eu e o meu Nissan Micra bronze seguimos o caminho do poeta Homero. A ilha é pequena. Há indicações em todo o percurso. Ainda bem. Deixa-te ir, que ao tombo de Homero chegarás. No caminho, Ninguém. Aqui, Ninguém. O único indício de que sigo certeira é o fim da rua Odisseia (Οδός Οδυσσειας), tomada da obra do poeta, pouco mais de 20 minutos depois de me ter feito a ela. Daqui só há volta para trás. São 10h15. Estou na pontinha mais a este do norte da ilha. Num recanto desta terra-ínsula. E para a frente, no monte, olhando o mar, o túmulo de Homero.

Túmulo de Homero

No início do percurso, embutidas na terra árida, placas de mármore branco com versos de Homero. Ninguém. Há um caminho marcado por uma fila de pedra sobre pedra que corre para o topo. Aqui, um túmulo emparedado de pedra com um metro de altura perfazendo um quadrado com não mais de três metros quadrados. Sem teto, porque ao poeta não se nega acesso ao Céu. Lá dentro, uma lápide com o rosto de Homero cravado. Daqui, o poeta segue para o mar, protegido pelo monte, que se abeira atrás de si. Para o mar e em seu redor, germinam como ervas daninhas montes de pedras sobrepostas.

É aqui. Sente-se ser aqui. Vagueei por entre estas pilhas sem destino nenhum. Todas vêem o mar. E eu também. Aqui jaz Homero, aqui jaz a paz, aqui jaz uma névoa de nada que me deixa sem fôlego para me colocar em apneia. Aqui há vazio. Imensidão. Aqui há morte. Tudo isto é mar, é céu, tudo isto… Aqui se questiona a vida. E tudo é uma homenagem. E também à vida.

Perguntas para mais respostas

Deixei atrás de Homero, em sua cabeça, cinco pedras sobrepostas, de várias formas, de tamanhos diferentes. E nelas deixei gravados alguns pensamentos. Fiz o caminho de volta mas por lá sigo. Desci o monte muito emocionada, com a mesma intensidade com que tinha rodopiado em volta do túmulo tentando compreender quem ali havia rumado, como um animal de quatro patas atrás da porta fechada que sente o aproximar de quem o afagará depois de um dia sozinho. Quem ali deixara centenas de montes de pedra, perfilando ao longe pequenas figuras humanas?… Com que intenção o fizera?

No percurso de volta,

a cada pegada que juntava à terra castanha, tornava-se mais forte o sentido de agradecimento por ter vivido a escrita do poeta, por ter sido discípula de grandes professores, colega de grandes companheiros de jornada, amiga dos amigos que ficaram, com quem trilho, ainda hoje, o caminho da cultura, da língua e da vida. Por ter recuperado e saído do hospital a tempo de aqui chegar.

Questiono se estamos no caminho certo.

Talvez não. Coloco em causa ter sido aqui sepultado o corpo verdadeiro de Homero. Talvez não. Tudo isto cai por terra tal é a força com que sinto ser importante o que o poeta deixou, todo o caminho que fiz para aqui chegar, o que sou, as pessoas que encontrei, a minha avó materna, que me cantarolava ditos populares, a maior dizedora de histórias que eu conheço, a minha avó Lurdes. Talvez tenha sido ela que me trouxe até aqui. Esta é a única verdade que interessa. Não sei se pisei o túmulo físico do poeta, mas o caminho que me levou a Homero, o que ali senti e o que me trouxe até aqui sei-os verdade.

Túmulo de Homero

(27 de julho de 2018 – dia 4 em Ios, Grécia)

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