Moinho de vento da ilha de Ios

Ios | Desço a noite quente

Treze anos depois, volto à Grécia como quem volta ao colo da mãe…

Nesse aconchego que me é tão natural e visceral, fiz paragem na ilha de Ios, vinda de Naxos, uma hora de mar depois de a ter deixado para trás. Por todo este palmo de terra, jaz o poeta Homero, assim, logo que chegamos ao porto, é ele quem nos cumprimenta. Mas é na parte norte, a este, que está sepultado. Acreditam. Lá irei! Para isso, há que alugar uma viatura. E aluguei. Dia 25 à tarde, deixo 20 euros de reserva para o carro que levantarei no dia seguinte, bem cedo, para me fazer à estrada com toda a gratidão que também veio na minha bagagem. Esta viagem de carro que vos quero contar devia tê-la feito ontem, dia 26, mas quis uma gastroenterite que assim não fosse e que antes fizesse morada durante doze horas no Centro de Saúde de Ios, Healthy Center of Ios. O mais próximo de hospital, que, aliás, a ilha não tem. Tive por anfitriãs uma enfermeira, de armas em punho e semblante bem rijo, e uma médica, a Anna, a outra face da moeda, de palavra meiga. Uma conjugação poderosíssima na minha difícil e prolongada recuperação. O calor, a humidade e a consequente perda de peso haviam-me retirado vantagem nesta batalha. Mas não há caminho lamacento que nos impeça de nos cumprir. São duas da manhã. O meu hotel fica a dois minutos andados do Centro de Saúde.

Desço a noite quente.

Vou sozinha porque vim só. A soro. O antibiótico já está. Tenho um consultório só para mim, com casa de banho privada. Uma maca de estofos de napa preta e pés de ferro pincelados a branco. Logo ali, ao lado da receção e do gabinete médico e da enfermaria. A cada 30 minutos faço caminho para os meus aposentos privados tendo por companhia o cabide para a minha garrafa de soro. Corre a muito conta-gotas. Seis horas depois, continuo nesta viagem arrastando-me, cada vez mais fraca. A médica pergunta-me se estou melhor e se as vísceras me deram tréguas. Não. E não.

— Vamos tirar-te sangue e mandá-lo para análise no único sítio aqui na ilha em que se faz isso. Mas é privado. Não sei quanto te custará mas não temos a certeza do que se passa contigo.

Do meu pouco grego que ainda levei, percebo a discussão de gabinete entre as minhas duas forças femininas.

— O soro não pode correr mais depressa para que o organismo dela possa limpar. Não sabemos o que se passa.

Nova visita, já é de manhã. Um novo enfermeiro. Febre. Injeção. Sozinha. Até aqui estive sempre muito concentrada na dinâmica de salvar as minhas cólicas, que continuam, aliás, e sempre muito certa de que tão certo era ter por companhia uma garrafa de soro por um par de horas. Mas não foi assim. Respiro fundo. E as lágrimas até então agrilhoadas correm até ao pescoço, mal vejo as costas do enfermeiro, de meigo trato. O cansaço esvaziara-me o discernimento. Estive com muita gente, de todo o lado. Sei que não se pode beber água da torneira. Não o fiz. Terei eu engolido enquanto lavava os dentes? Terá sido comida, e não água? Nem é hospital onde estou… Não se fazem aqui análises, de nenhum tipo.

Estou na Grécia, na minha casa de alma e de coração.

Muitos anos quis voltar, mas uma-qualquer-força me retraiu, sempre, ano após ano. Estou na Grécia! É esta a força que me fará recuperar. Agora que aqui estou, que pus de lado os meus muros frouxos dos últimos anos, não há corpo que me retenha. Sozinha. Ligo para o meu hotel pedindo que avisem o Sr. do Acteon rent-a-car explicando que estou internada e que não levantarei o carro. Peço que me seja dado o carro para o dia seguinte.

São 9 horas da manhã. Já não visito os 3 metros quadrados da casa de banho mais privada que tive nas últimas-horas-que-parecem-dias. À empregada de limpeza que viria fazer a manutenção da manhã ainda tentei dar um olhar de agradecimento. Só não pude prever o olhar devorador que ela me faria depois em retribuição. Já disse que a descarga da sanita não funcionava? Funcionava, afinal, mas havia truque. Às 11 horas da manhã, passo para um quarto com uma cama! Estou fraca, muito fraca. Para o meu cabide, vem agora outro líquido milagroso que me reporá a hidratação e mais uns quantos bichos para me fortalecer.

Preciso de seguir viagem.

Amanhã, será Santorini, um livro que abrirei pela segunda vez, com uma vida pelo meio de catorze anos.

Ouço, ao fundo do corredor, uma voz masculina bem grave proferir em grego um rol de reprovações e a chamar a médica Ana, bem alto. Quem, este rude? Foi esta mesma voz enfurecida que em forma de corpo de feições fortes, morenas e sorridentes se abeirou da minha cama.

— Então, Katerina, já sei que estás a melhorar. A Dr.ª Ana já mo disse. Não te preocupes. Estás bem acompanhada. Só sais daqui quando te sentires bem.

O que fazes por aqui sozinha?

— Sou portuguesa e amo a Grécia. Vivi seis meses em Atenas em 2004, mais uns tempos em 2005. Aqui estou de novo.

O melhor é que nunca esperemos nada grandioso de nada, porque é nesses mesmos momentos que somos abalroados pelo que recebemos.

— Portugal? Oh, adoro Portugal, conheço muito o Porto, já lá fui duas vezes. Na década de 80 e 90, fui várias vezes a Portugal… País bonito e de boa gente…

Mas tu, como te sentes?

— Fraca, muito fraca.

Fita o líquido translúcido do saco e diz-me:

Estás muito desidratada. Foram muitas horas e mais as horas que já trazias de desidratação. Descansa. Só sais daqui quando estiveres boa.

Fraca, suja, magra. Uma portuguesa no meio do mar Egeu.

Saí do Centro pelo meu pé cerca das 15h. Do resultado das análises soube que era bacteriano e que tinha de ir à empresa que fica no porto pagá-las. É para lá que vou. Na mão, uma receita em grego, com três medicamentos: antibiótico de cinco dias, afinal, eu havia tido febre, omeprazol para três dias e probiótico, também para três dias. Na mão, um papel com tudo o que podia ingerir nas 48 horas que se seguiam. Água, camomila, batata cozida, frango cozido, arroz branco, massa simples, maçãs, bananas, sopa. Ainda tenho esta prescrição. A Dr.ª Ana diz-me que não me preocupe. Com o que me deram e com o que me receita, posso seguir viagem, mas pede-me que no dia seguinte passe pelo hospital para com ela ver como me estou a sair antes de seguir para Santorini.

— Quanto tenho a pagar?

— Nada.

— Nada? Como nada?

— É um serviço de saúde público. Ninguém paga.

É o sistema grego. Estava certa de que talvez houvesse mudado… Fui pagar oitenta euros em análises. Nada paguei dos meus cuidados… Não voltei no dia seguinte para visitar a Dr.ª Ana e lhe mostrar como o meu corpo estava no bom caminho. Entreguei o carro a horas de me fazer ao porto a tempo. Não arrisquei ir ao Centro de Saúde a poucos metros dali… Saí para Santorini no ferry com meia hora de atraso. Tempo Custa-me não ter lá ido… Eternizo aqui a minha gratidão às três vozes que me acolheram. 

Centro de Ios

(26 de julho de 2018 – dia 3 (madrugada) em Ios, Grécia)

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