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Milos a oeste num barco com gente do mundo

A viagem que eu não contava fazer

Estou no porto. Poucos minutos mais do que as 9h da manhã. Vim cedo para entregar cedo o meu companheiro destes pequenos dias de grandes e azuis rodadas. Estou na praça a olhar. Sei que à minha frente, do lado de lá da estrada, está o barco, um catamaran, que me levará de viagem por Milos. De seu nome Chrysovalandou. E, afinal, levar-me-á, não por parte da zona oeste, mas por todo o oeste. Vou fazer a viagem completa, e não a de meio dia. Só muito tempo depois, já este dia estava cumprido, percebi que aqui havia gato. Fora o Manolis e as suas artimanhas a empurrar-me para um dia que, sim, afinal tinha tudo que ver comigo. E que confirmaria que em viagem nunca estamos sós e que indo sem amarras trazemos sempre o coração mais rico. Estando na pequena praça, fui às minhas costas pagar o meu passeio, à agência de turismo. Foi a mulher do escritório que me presenteou com a notícia de que eram 110 euros, a viagem. E que era uma daytrip. “Não quer?” “Quero, quero, eu é que havia compreendido que, para a viagem de um dia, já não havia lugar.” Vamos lá!!

Desde que aqui cheguei que o meu anfitrião Manolis me puxa para esta viagem, para a fazer de um dia inteiro e por esta companhia, que são muito gente boa e que, imagina tu, faz um barbecue numa praia dentro de uma caverna!

“Não sei, Manolis, um dia inteiro…”, dissera-lhe na manhã daquele dia em que fiz a minha roadtrip com o meu Matias pela ilha.

“Katerina, é pelo dinheiro? Ou o quê? Tu tens todo o ar de aventura. E é muito bonito. E a experiência, única. Eles fazem um barbecue numa praia dentro de uma caverna! Fenomenal.”

“Não, não é isso, Manolis, mas eu gosto do desapego da viagem, sem compromisso.”

“E em que é que essa tua vontade não encaixa nesta viagem? Vai. Pronto, se não quiseres fazer a de dia inteiro, faz a de meio dia, mas olha que te aconselho a fazer a completa. O barbecue… Vão de manhã e só voltam já quase à noite. Vou ligar já a ver se há lugares livres. Já não há para dia completo. Apenas a outra.”

Está reservada a minha viagem. Só tenho de estar no porto, a meio do porto, frente ao catamaran, às 9h30.

“Ok, que seja!” Foi esta a resposta que dei ao Manolis. Foi esta a resposta que dei a mim mesma quando me vi numa súbita viagem de um dia. Começámos a entrar pouco depois das 10h. Afinal, ainda faltavam os nossos seguros. Fiquei para último. Atrás de mim, um casal jovem, brasileiro, a quem, claro, reconheci a origem pelo entusiamo da nossa língua. Subo para o barco. A querida ajudante do capitão, de quem com muita pena não lembro o nome, de sorriso rasgado, pergunta-me em grego o meu nome. Respondo em grego fácil, “Katerina!”, que ela soletra com uma alegria de todo o dia, de todos os cantos, “Katerina Karvalierou, ti kanis?” (Como está?) Respondo com um “Polí Kalá!” (Muito bem!). Fiquei espantada por ter soletrado o meu nome tão bem. Pus um olho na lista que ela tinha na mão, o meu nome estava escrito em grego… Pequenas expressões que fazem a diferença. E não apenas as da língua. Mas as do rosto, dos olhos, dos sorrisos… “Podes tirar os chinelos e colocá-los no cesto. Que tenhas um dia muito feliz.” Agradeci-lhe em grego num sorriso de quem se sente na sua terra e entreguei os meus chinelos àquele cesto como quem se entrega às horas sem porquês, à tranquilidade da felicidade certa.

Iria fazer o Circuito 1. Saindo do porto de Adamas/Adamantas a Kleftiko, passando por Klima, por Vani, Kalogries e Sikia, como pontos principais. Eu nem tinha visto que percurso exato iria fazer. Como? Sabia que exploraria o oeste e que incluía as tão maravilhosas zonas de Sikia e Kleftiko, que tanto fizeram falar o bendito Manolis, mas…

Dirigi-me, eu e todos, para a parte da frente do catamaran, aonde nos podemos espraiar. O espadaúdo capitão Nikolaos, a alegria queimada pelo sol em gente!, de maçãs do rosto bem alegres, apresenta-se, dá-nos as boas-vindas, agradece a nossa estadia e começa uma série de divertidos avisos.

“Deixem as vossas coisas ali atrás, porque mais dentro do mar a água chega a esta zona. Tirem a roupa e fiquem de fato de banho porque se vão molhar. A casa de banho é lá em baixo. Basta que se dirijam à outra parte e que desçam. E pelo que vejo têm todos cara de resistentes. Hoje, o mar está mais calmo. Ontem, vários colegas vossos contemplaram o mar para o alívio das entranhas. Cuidado. Se quiserem vomitar, façam-no a favor do vento; não contra…”

Rimos em orquestra. Hoje sei que todos sabiam que não enjoariam, porque ninguém enjoou. Grande grupo!!

Relembro a configuração deste catamaran. Há duas zonas, lado a lado, com duas redes, aonde nos podemos estender. Digamos que são duas piscinas mas nós estamos em cima da rede e só temos contacto com a água quando em mar alto o barco atinge certa velocidade. E é espetacular. Nos rebordos destas piscinas, podemo-nos sentar. Há também uns bancos laterais aonde podemos ir e aonde nos podemos agarrar ao corrimão. Diria que estão resguardados aos menos aventureiros. Adivinham aonde eu ia?? Pois, na frentezinha, na rede, na aventura completa. Só não contava com tais banho de chapa na cara. E foi tão bom. Ao meu lado, duas irmãs francesas, uma de uns 10 anos, outra de uns 12. O irmão, de 16, ia atrás, resguardado destes refrescos, junto da mãe. O pai ia ao nosso lado num dos banquinhos laterais, garantindo, na dúvida, a segurança das filhas que estavam no verdadeiro espírito. Não há falta de segurança. Temos é muita escassez de adrenalina, de natureza, de aventura do instinto. Vibravam as miúdas, ali, deitadas, debruçadas na rede, olhando de caras o mar aos quadradinhos. Grandes banhos, grandes limpezas! Grandes alegrias! E o que ainda viria…

Kalogries

Os bons-dias do capitão

Quando a âncora fez as entranhas do barco ranger, sabíamos que era aqui a primeira paragem. Mas o mais caricato estava do outro lado. Quando nos dirigimos às traseiras do nosso veículo, estava o capitão Nikolaos na água, sozinho, virado para nós, a proclamar vocativos de alegria para que nos juntássemos a ele. Que bonito… Que simplicidade. Que amor tem por esta profissão de receber. Aquando da sua apresentação, fizera saber que fazia o que amava, que tinha orgulho imenso na filha única que tinha e que no fim do verão entraria na universidade.

Gente do mundo

À medida que íamos entrando naquela água, um dos azuis mais claros que já vi em toda a Grécia, ia travando conversa connosco. De onde éramos, se estávamos bem. Sempre numa simpatia que morava em todos os cantos do seu rosto. “Aproveitem. Estas águas são lindas!” São. Aqui, dentro de água, conheci o casal que entrara no barco depois de mim, a Paloma e o Guilherme. De São Paulo. Voaram do Dubai para Zakynthos e estavam agora em Milos. Seguiriam, depois, para Santorini e Egipto. Apresentámo-nos ali, no meio daquela água aonde na certeza a deusa Afrodite, a de Milo, se banhara e deixara a sua beleza. Na subida para o catamaran, enquanto esperávamos que os companheiros da frente subissem, oiço uma voz masculina perguntar, em português, se eu também era grega. “Não, não, eu sou portuguesa.” Havia entrado antes de mim no catamaran e ouviu a minha pequena e humilde conversa em grego com a nossa querida ajudante. Assumira, portanto, que eu era luso-grega. É o Andreas, filho de mãe brasileira e pai suíço. Estava na ilha do amor para comemorar o seu amor. Ela, a Daniela, sérvia. Conheceram-se em Zurique.

Já conheci gente de muitos cantos em muitos cantos e de muitas formas. Nunca dentro do mar Egeu.

Subimos. Em cada subida, um banho de mangueirada de água doce. O primeiro refresco. À nossa espera, um banquete. Mesa posta de fruta cortada, melancia, pêssego,… Tão doce!! Tudo a condizer! A doçura daquela fruta era o reflexo de todas as empatias. Café e frappé que o próprio Nikolaos ia preparando para todos. Por adoçante, a sua simpatia. E que doce fora este encontro à volta da mesa.

Só.

Já havia percebido que era a única viajante a solo naquele barco (até mesmo antes de embarcar). A maioria, casais. Não sei se seríamos mais de 20 pessoas. Em vários momentos, se palavras fossem necessárias, juntei letras para marcar sobre a pedra que nunca me senti só, que as viagens se fazem connosco dentro e de estarmos efetivamente. Se assim for, estaremos sempre em companhia. Saiamos nós do nosso porto fisicamente sós ou acompanhados.

Sozinha foi toda a viagem uma mulher que se destacou por reforçar o quanto só quer viver não estando fisicamente só. Mulher dos seus sessenta anos, sentou-se à frente, ao nosso lado, aonde a força do mar chega, completamente vestida e abraçada à sua mochila. Ao aviso do capitão, de que cuidasse dos seus haveres, de que se colocasse à vontade para aproveitar o mar, o sol, este bonito dia, reagiu com grande desconfiança. Estava toda tapada, debaixo de muitos graus. Todos à volta daquelas piscinas travavam natural conversa, sorriam raios de sol. Ela pegara no que me parecera ser uma revista científica que não sobrevivera muito mais tempo às diabruras daquele mar saltitão. De revista encharcada, olhara para mim e com grande certeza me dissera que era uma revista e que secaria! Secará. Não comunicara muito connosco e quando o fizera mais se afunilava no mundo que parecia querer viver sozinha. Para espanto nosso, percebêramos que viera com uma amiga que com ela pouco partilhara uma conversa ou sequer um espaço físico próximo naquele barco de empatias. O que é estar só?
Sim, vamos comer aquilo!
Ainda antes do episódio da revista, pouco depois de levantarmos âncora no porto de Adamas, o Capitão Nikolaos pediu licença, se lhe arranjaríamos um espaço na rede para ele colocar ao sol um polvo. Logo ali, ao meu lado. A mulher-de-leituras-de-catamaran perguntou para que era aquilo, se iríamos comer aquilo, apontando com grande nojo para aquilo, o polvo. Respondi prontamente que sim e que era muito bom! Faço saber que na Grécia há muito e bom polvo e que é normal vê-lo estendido como se de roupa se tratasse. Seco ao sol fica mais macio, pelo que não é preciso cozer antes de ir para a brasa! E é muito bom. Esta reação espontânea soube-a pela boca do François, que viria a conhecer nos entretantos. Ele, enólogo e ex-engenheiro químico, viera com a sua mulher, a Rosanne, canadianos, andavam pela Grécia à cata de bons vinhos, de zonas vinhateiras. E de amor. Estavam atrás de mim no momento de pôr o polvo ao sol. Conheceram-me logo ali. Eu os conhecera um pouco mais tarde.
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Kleftiko

Snorkeling

Não sei se alguma vez o Manolis me dissera que no plano estava uma atividade de snorkeling. Estava. Eu não sabia. Nunca havia experimentado, embora em Naxos e em Ios tenha visto dezenas de pessoas a fazê-lo. Oportunidades não faltam. Junto da parafernália da praia, estavam sempre os tão característicos óculos e a eles atrelada uma boqueira com o respirador.

Kleftiko é feito de silêncios de azul, dos aconchegos das paredes brancas da costa que em seus ventres albergam grutas secretas. E nestes silêncios há conversas de empatias no nosso barco. Há olhares brilhantes queimados pelo sol. Há desenhos nos lábios com vontade de futuro. Há pequenas aragens de tranquilidade que nos chegam dos poucos barcos vizinhos que por aqui vagueiam.

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Snorkeling? A sério? Vive-te, e hoje é sempre o dia certo. Ir a desplano sou cada vez mais eu. Eu e muitos que tenho encontrado por estes caminhos. Compreender viagem e viver as pessoas têm-se tornado vitais para as pessoas, mais do que adicionar sítios. É este o espírito e a essência. E se dúvidas houvesse está toda a equipa da tripulação a relembrar que para tudo o que está à parte disso não é bem-vindo a este barco.

O camarim

Lançámos âncora, mesmo em frente a uma gruta de duas bocas abertas. É nas traseiras do barco que se encontra o camarim. Num grande baú branco, esparguetes coloridos para quem não se quer cansar, barbatanas de todos os tamanhos, óculos e respiradores para todos. Eu levo tudo, e também uma adrenalina infantil que me fez ribombar. A água está a uma tal temperatura que refresca o corpo quente e amacia o espírito.

O fundo do mar, que está lá em baixo, a uns tantos metros, está aqui. De tão límpida e transparente, a água aproxima o fundo. Está aqui. As paredes brancas que aconchegam este mar, estes grandes rochedos que se erguem e estas grutas dão-me conforto e, aos peixes, em cardumes, dão proteção e alimento.

Páro frente à boca da gruta do lado do mar mais alto. Olho o fundo do mar e toda a envolvência da gruta. Os raios de luz que a rasgam permitem uma visão sobre aquele fundo do mar que é azul-turquesa estrelado. Do outro lado, na outra boca, uma praia de rochas encavalitadas, que só é possível atravessar sem as barbatanas. Vale a pena. Muito. Tanto. E tudo.  

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Foto by Paloma

Sikia e o barbecue

Só no final deste dia e até dias depois, hoje mesmo, compreendi o impacto destas convivências e o impacto que as pessoas podem ter em nós. Sobretudo, a forma como se abrem para dar aos outros, como estendem as palavras e os sorrisos genuinamente. Não porque lhes pagámos, mas porque com eles empreendemos viagem e vivências.

Sou fruto de piqueniques toda a infância e parte da adolescência. Levar a casa atrás para um parque aonde a família se reúne para um dia de grelhados, de jogos tradicionais e conversa não era novidade para mim, embora esteja já muito distante. Mas barbecues há muitos e são sempre dias especiais. Como este, nenhum.

Atracámos o grande barco em Sikia, já no caminho de volta para o porto de Adamantas eram já cerca das 15h. Neste sítio, o fundo do mar é… como vêm na fotografia. Não consigo fazer nenhuma descrição a jus.

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A gruta-que-é-praia-que-é-caverna

O Capitão Nikolaos avisa que ele e a equipa vão no pequeno boat para a gruta preparar o nosso barbecue e que uma parte de nós tem de ir. Depois, virá de novo para levar o resto das pessoas. Podemos deixar todos os pertences no catamaran. Não é perigoso. Não é, nem se sente. Não me lembro de ter questionado nada. Não levei nada, a não ser o meu chapéu, óculos de sol e toalha de praia. E assim foi para todos. Alguns levaram as GoPro. Não tenho nenhuma foto desta parte. Tenho os olhos grandes de contemplar, tenho as maçãs do rosto altas dos risos das conversas, tenho as mãos livres para agarrar o meu prato e o meu copo, tenho todo o sossego da mente para viver isto.

Entramos na gruta que se abre e revela uma minipraia de céu aberto. Pequena mas ainda assim de duas faces. Divide-se por uma parte de areia, protegida por grandes arribas. Daí, é possível subir um monte rochoso e explorar os recantos daquela gruta-que-é-praia. Na outra parte, a praia faz um recanto que é uma semicaverna em meia-lua. E por areia este lado tem pequenas pedras. Aqui, há um fogareiro caseiro montado pela tripulação que aqui dorme todos os dias. Eles lá. Nós aqui, entre banhos, exploração e conversas.

Em volta do grelhador

Estávamos espalhados ao longo da pequena parte de areia. Parecíamos leões-marinhos estendidos ao sol, com a mesma moleza. Lembro-me de que conversava com o Andreas sobre a minha relação com a Grécia, as alturas em que lá vivi e o que sinto nela, dela e sobre ela. Sobre os anos na investigação. Ele é investigador em Psicologia. E o que se viria a passar de seguida é mais uma história que trago dentro da Grécia e que visceralmente a ela me liga. É mais uma metáfora da simplicidade e do afago desta gente.

“Pessoal, o almoço está pronto. Venham!” Chamada do Capitão é para cumprir.

“Façam, por favor, um círculo em volta aqui do grelhador e de nós, sentem-se no chão o mais confortavelmente que consigam.” Em cima de pedras, portanto. Quem diria morar ali conforto?

Em frente do grelhador, sentados em cima das geleiras, o capitão e a sua querida auxiliar de quem sinto não lembrar o nome. Tinham a seu comando não apenas o catamaran, mas uma pequena fogueira no meio de um poço rodeado de grandes pedras. Em cima, duas grelhas cheias. Em seu redor, tudo o que faz falta numa almoçarada ao ar livre, travessas, pratos, copos, talheres, vinhos, cerveja, pão, salada, … Tudo com tanto tato e carinho.

E de novo o capitão. “Vamos ajudar-nos e passar tudo de que necessitamos para o nosso almoço.” Passa os pratos de um lado e do outro. Venha os talheres, venham os copos, os guardanapos… Era um processo em série. E que bonito era.

“Vamos dar início ao nosso almoço, que é, acima de tudo, um momento de partilha e de conhecimento. Lembram-se do polvo que ao sol colocámos ao vosso lado? Aqui está, dentro desta taça. Cortei-o aos bocados. Vou passar a taça por todos. Cada um tira uma peça, apresenta-se e come. Começo eu. Sou o Nikolaos, sou grego e tenho a profissão mais bonita do mundo.”

A taça, essa faz seguir caminho pelo seu lado direito. Eu não estou muito longe. “Sou a Catarina, venho de Portugal e estou cá por amor a este país.” A auxiliar do capitão, mulher alta, corpulenta, morena, cabelo escuro e de ondas até aos ombros, sorriso que vem do coração, bate palmas efusivas e todos riem, e diz levando os braços ao alto: “Portogalía!! Mou arései polí!” (Portugal, adoro!) E em inglês remata: “Estive em Portugal na Páscoa passada, estive em Lisboa, em Óbidos, em Fátima e em Leiria. Pessoas lindas.” O quê??… Dissera isto com as mãos juntas acima da sua cabeça, como quem deixa ali a maior das verdades. Mandei-lhe o meu sorriso e o meu afago, que mais tarde lhe deixei num forte abraço.

O caminho daquele polvo sagrado seguiu. Todos estavam ali por amor, fossem os enamorados, fossem os filhos de pais de família, fossem os que juntos foram sós. E eu também. Que abertura! Que começo… Todo o sistema orgânico era o mesmo: éramos, cada um de nós, o conjunto de uma passadeira fabril que leva o produto acabado para encaixotar. Veio a travessa do frango grelhado, pão caseiro fatiado assado na grelha com azeite e orégãos, veio peixe, de vários tipos, veio salada grega, veio vinho verde, veio cerveja, água, sumo… Pratos cheios com comida de afagos. À minha esquerda, ficou um casal de namorados grego. Ele, piloto; ela, hospedeira. Os dois lindos, embora apenas ela tivesse traços tipicamente gregos. Por sua vez, à sua esquerda, outro casal grego. À minha direita, ficaram o François e a Rosanne; o Andreas e a Daniela. O Guilherme e a Paloma ficaram um pouco depois, com vistas privilegiadas para o grelhador. Nada mais é preciso. Tudo isto é o que basta para definir o ambiente. E a Grécia é isto e mais alguém.

A família dos cinco

São horas de regressar. A tripulação do barco arruma, limpa, sempre com grandes afagos. Eu vou no primeiro carregamento. Não me lembro de ninguém que fora comigo no pequeno barco. No caminho para lá, presentifico todos os que comigo foram até hoje. Mas esta vinda fi-la em grande gratidão. Estava absorta, inteiramente. Nada recordo desta viagem. Acordei no catamaran. Comigo foi a única família que estava connosco. Entre mergulhos do barco para aquele mar de chão de pedras brancas, estou em cima do catamaran e tenho uma imagem linda. A família dos cinco acabara de mergulhar e brinca no mar. Quando o pai subiu, perguntei-lhe se queria uma fotografia de todos naquele mar. Ficou agradavelmente surpreso e logo ali agradecido. E as imagens lindas. Começámos uma importante conversa, logo depois. E é tão isto que importa. Vinham de Paris, lá nasceram e lá sempre viveram. Todos os anos viajam com os três filhos. Já correram muita Europa, Estados Unidos, Ásia e querem continuar. Têm sempre muito cuidado com os sítios que escolhem por causa das crianças, ainda que agora o mais velho já tenha 16 anos. Estão muito felizes por terem escolhido a Grécia. A mãe ouvira muitas vezes dizer que os gregos são trapaceiros e não tinha grandes expetativas das belezas gregas. Estavam os dois agradecidos e superimpressionados pelas vivências dos últimos dias, pelas pessoas e toda a beleza ainda natural. O pai salientou logo a segurança que se sentia em todo o lado e que não encontraram em muitos sítios. Vais ao mar ou a uma caminhada, deixas tudo ali; os miúdos podem explorar sem problemas, brincar, tudo em ambiente rural e tranquilo. E depois o trato simples, genuíno e sério das pessoas. Aqui há todas estas atividades que vão buscar o que é de mais genuíno. E falando de segurança referiram a falta que sentem dela em França. Aqui estavam tranquilos. É isto que querem mostrar e dar aos filhos, o conhecimento do outro, da diversidade do mundo e de uma Europa de paz que um dia não a teve e que se esquece disso.

O pôr do sol de um catamaran

No regresso, já dobrada a ponta de Vani e na entrada da língua que o mar Egeu faz em Milos, um dos casais vai com o capitão-aprendiz no barco pequeno para o porto de Adamas. Vai embora. Faz-se a casa. Nós ficamos até ao fim. Ficamos ali a aproveitar para esticar a conversa, engordar o olhar e dar o corpo àquele mar dos deuses. Não há dúvida. A deusa Afrodite banhou-se em toda esta costa. É um ambiente de pureza tal que presentifica, que eterniza e, acima de tudo, nos gratifica. Fomos chamados às traseiras do catamaran, de onde já estamos habituados que venha doce surpresa. Há gelado! E há pôr do sol…

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Alguém teve a iniciativa de criar um grupo privado no Facebook, para que pudéssemos seguir caminhada. Combinámos que, chegados ao porto, iríamos ao hotel tomar um banho e voltaríamos para comer qualquer coisa e beber um copo. Precisávamos de mais tempo para nós. Precisávamos de cumprir empatias e cumprir viagem.

Foto by Daniela
A profissão do meu pai

Fui das últimas a entrar no Chrysovalandou. Fui das últimas a sair. Queria tempo para umas palavras com a auxiliar do capitão. Disse-lhe que era de Leiria. Agarrou-me nas duas mãos e disse-me que achava que eu era grega, porque tínhamos falado em grego e tinha o mesmo apelido da família dos Karvalierou, famosos artesãos de joias da ilha. Já o Manolis me tinha perguntado a profissão do meu pai, se ele tinha em tempos antigos estado pela Grécia, porque o meu apelido era o mesmo do da tal família. E advertiu-me para o facto de ter por lá irmãos. Ahah!! Irmãos são sempre bem-vindos! À parte desta bonita coincidência, sou grega, decerto! Agradeci-lhe pela entrega e dedicação àquele dia e a nós. São quase 21h e não há cansaços. Fazem isto todos os dias. E tenho a certeza de que cada dia o fazem com as forças revigoradas do dia anterior. É amor ao que fazem, às pessoas e à vida.

Para uma viagem no Chrysovalandou.gr, podem pedir ao vosso hotel para fazer uma reserva, podem ir à agência de turismo Milos Adventures no porto comprar (+30 22870 23809) ou podem comprar online.

Deixo-te aqui outras opções para exploração da ilha de Milos por mar e onde comprar diretamente online:
 
O único taxista do porto

Fui de táxi para o meu hotel, Faros Apartments, que por minha escolha, não fica perto do porto. Dá para fazer a pé, mas são mais de 30 minutos. Queria ir e voltar o quanto antes. Apanho-o ali no porto. Não estava nenhum mas esperei. Ele não falava muito inglês mas falava muito, em grego. Fui, pois, obrigada a puxar pelo grego que está lá no fundo. Era um castiço. Consegui dizer-lhe de onde vinha, que já tinha vivido na Grécia. O ser portuguesa é uma enorme vantagem. Tenho-me encontrado com histórias muito engraçadas. Disse-me que estava a pensar vir a Portugal com a mulher e os dois filhos na Páscoa seguinte. Queriam muito conhecer Fátima. Não contava encontrar tantos gregos a conhecer Portugal ou a querer fazê-lo, mas compreendo que Fátima os cative. Dão muita importância à religião, não apenas à sua, ortodoxa, que cuidam com grande estima.

Deixou-me no hotel e perguntei-lhe se havia um número para onde ligar para chamar um táxi que me levasse de novo ao porto. Deu-me um cartão.

Quando o vi chegar para me levar ao porto aonde me encontraria com o grupo, rimos os dois. Para baixo, a conversa fora sobre a viagem daquele dia e os φίλοι μου (meus amigos) que tinha feito. 

Meu taxista, espero que tenhas vindo a Portugal e por cá tenhas tido uns bons dias.

AKPY Bar (AKRI bar)

Reunimo-nos num café no sopé do porto para comer algo e depois subir. Eram onze da noite. Um calor na rua e nos corações. Ficara aí a saber da versão da história que já contara sobre o momento em que o capitão colocara o polvo a secar e também do nojo sentido aquando da retirada do bocado de polvo da taça, aonde já tinham entrado muitas mãos. Afinal, ela estava quase no fim do circuito. O François ficara na retranca a ver como reagiria ela ao desafio do capitão depois da repulsa expressa pelo polvo na rede. Repulsas à parte, desafio cumprido. Todos nos superámos. A força de grupo também é isto. É nestas coisas simples que se encontra a vida e o seu sentido, que perdemos na correria dos dias.

Horas de conversa desamarrada, descomprometida e desapegada. Nós. O AKRI bar fica num canto do monte, num canto de ruas subidas e caminhos de estreiteza branca, cheios de bares e música. E tem sobre o porto e o mar uma esplanada de vistas de aragem quente.

Portugal, Canadá, Brasil, Suíça e Sérvia, CHEERS. François e Rosanne; Guilherme e Paloma; Andreas e Daniela, YAMAS! E a todos os que compreendem viagem.   

Foto by Akri bar
Cada ilha tem o seu tempo e aqui eu nada mando.  

Não tenho muitas fotos deste dia. E algumas tenho-as através do grupo. Não levara bolsos. Apenas os da memória. Há muito, muito, tanto tempo que não me sabia tão desapegada, tão em tábua rasa. Um biquíni, um chapéu, óculos de sol e um barco de histórias feitas de gente, gente, gente.

Amanhã será o último dia na ilha. Sigo para Atenas num ferry a terminar a manhã. Na despedida ao Manolis, questiona-me se quero mesmo ir para Atenas, o que vou para lá fazer. Que tem o meu estúdio vago. Como é possível deixar ilha tão mágica em troca de seis dias em Atenas? Um dia digo-te, Manolis. Mas, tal como no assunto da viagem de barco pela ilha, nesta matéria também és sabido. E é só outra coincidência o facto de o nome Manolis conter todas as letras que dentro tem a palavra Milos? 

Curiosidade – mito sobre Milos

A deusa Afrodite ainda vive na ilha de Milos

Aqui, todos os que aportem em felicidade junto do seu amor verão destruída a sua união até ao ano seguinte. É o que se diz sobre a ilha. Contou-me este mito a Jenny, minha anfitriã em Atenas e que viria a conhecer um dia depois de me ter encontrado com este fantástico grupo. Um ano depois, o que quer que tenha acontecido, todos juntos.

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(2 de agosto – dia 3 em Milos, Grécia)

2 comments
  1. Que dia lindo!! Foi um prazer tê-la conhecido, assim como os demais. Recordar esse dia através da sua escrita é como estar lá novamente: sentir o gosto do polvo, a temperatura da água, a visão daquele pôr do sol maravilhoso…
    Descobri ainda mais coisas aqui: De onde era aquela família que as meninas estavam na rede, que o François é ex-engenheiro químico e como o AKRI bar que fomos era lindo! A noite e cheio não deu pra ver tão bem. Foi um dia incrível!! Ri muito ao lembrar da história da revista hahaha
    Quanto a ter poucas fotos de alguns momentos, temos vídeos do barbecue e do trajeto até a caverna. Te enviei? São uma delícia de se ver.
    Parabéns pelo texto belíssimo, li para o Guilherme que está sem redes sociais e nos sentimos lá novamente. Quero vê-la novamente, venha nos visitar! Grande beijo.

    1. Querida Paloma,
      O quanto me emocionei a ler-te e a rever-te nestas tuas palavras. Revejo muitas vezes este dia feito de pessoas e de empatias. Revejo o que realmente escrevi. E estas pessoas têm nome e, em comum, uma história bem bonita cheia de histórias dentro. Tenho pena de não me recordar de mais sobre as pessoas. Afinal, viajar é isto. Mas do que não lembro vivo em imagem. Partilhaste comigo os vídeos do nosso brinde no Akri bar, do barbecue e da viagem até à caverna e as minhas fotos do snorkeling. Não tenho fotos da caverna. Mas tenho-vos a vocês! Espero ver-vos em breve. Fica prometida uma visita minha. Até lá, deixo-vos um grande abraço, a ti e ao Guilherme e a todos os que fizeram este dia, e que dia! 🙂

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