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Milos | Faros Apartments, a Milo de Manolis

Esta é a história de alojamento mais hilariante que trago nas bagagens de todas as minhas viagens, a do Faros Apartments, na ilha de Milos, e a do rosto que por detrás dele está, o Manolis. Quantas viagens fazemos antes de fazer a mala? As cortinas de veludo cor de vinho abriram-se muito antes de eu estar preparada para tomar o palco.

Milos, uma ilha do mar Egeu

Em março de 2018, comprado o voo para Atenas, a minha ponte para as três semanas que passaria na Grécia, de volta a uma casa minha, muitos, tantos anos fugidos depois. Nesta decisão, estavam outras. De que voltaria às Cíclades (Κυκλάδες), ilhas do mar Egeu, pontos brancos acima de Creta. De que o faria de barco, como o fazem centenas de gregos todas as semanas a partir do maior porto grego, o porto de Piraeus (Piréa).

Ser grego é trazer às costas a euforia da civilização ateniense e no coração a tranquilidade do que está além-pólis. Afinal, hoje, o perigo não está do lado de lá mas dentro de uma cidade branca e pastel que trepa os contornos físicos que vêm do mar e sobem os montes formando uma cidade-fortaleza em meia-lua com vista privilegiada para o mar.

Que ilhas faria?

Não foi difícil. Naxos, pela história mitológica; Ios, pelo poeta Homero; Milos, pelas cores da ilha, por ser uma pequena réplica do que poderá ser a lua, se é que é isto a lua. Todas, pela simplicidade de vida, pela tranquilidade do tempo que não marca passada, pela presença dos que ali vivem inteiramente despegados dos desenfreamentos vizinhos do turismo. E Santorini, que também aconcheguei. Pela primeira vez em meio; pela segunda vez em medos.

Visitara Thira, Oía, Pyrgos, praias preta e vermelha e as Caldeiras em dias de 2004 corridos. Há por ali mais beleza. Preciso de lá voltar. Preciso de ficar e viver as zonas que não as que comandam milhares de turistas. Irei, não sem o medo de encontrar territórios ceifados rente pelo volume do turismo, que viria a confirmar ser muito, em alguns pontos, nos pontos geograficamente mais altos da ilha. Nos mais baixos, ainda há paz. Em todas as inclinações, ainda há beleza.

Faros Apartments, uma voz aberta de sorriso e simpatia

O alojamento no Faros Apartments fora dificultado pela negação constante dos meus cartões virtuais que sempre usara. Recordo que desde 2009, por aí. A Booking não aceita mais cartão virtual e também não é clara esta informação. Somente depois de perder duas reservas, de falar com o meu banco e de ligar pessoalmente para a companhia me foi dito que precisava de um cartão de crédito físico e com relevo (sem ser pré-pago). Com dinheiro à vista, portanto. Sempre! Fica o aviso.

O que muito nos custa até nós virá

Perdido o alojamento em Milos pela terceira vez, liguei diretamente para o hotel, uma vez que ainda não sabia a verdadeira razão para o sucedido e nos entrementes viria a ser mais uma portadora do tão famigerado cartão de crédito, que é, aliás, indispensável para aluguer de viaturas na maior partes dos sítios na Grécia. Da minha experiência recente, em todos. Nada como tomar a liderança dos problemas. Nada como ouvir a voz de quem está do outro lado.

Vou contar esta história de receção, quatro meses antes da receção presencial e efetiva. No dia 27 de março, liguei para o Faros Apartments, perto do porto de Adamantas ou Adamas, em Milos. Afinal, era um studio budget, num hotel familiar. A preços de março. Não podia perdê-lo. Uma voz masculina atendeu. Eu disse o meu nome, apenas. Do lado de lá, uma voz aberta de sorriso e simpatia.

“Katerina is a Greek name!! So, tell me!”

Explicara-lhe o que já aqui te contei.

“Katerina, you want this room?” “Yes! That’s why I’m calling you.” E a voz de sorriso: “Ok! Don’t worry! Just come! Sorry my English. The lady who works here will call you. Don’t worry! If you don’t want to come just tell me some days before.”

Alojamento familiar sempre

Irei. O Manolis fez-me lembrar da razão de a escolha ter sido a minha Grécia, em detrimento de tantas maravilhas do mundo, e da minha opção, maioritariamente, por alojamentos familiares. O mais importante é a genuína vontade de comunicar e, assim, de conhecer e ajudar o outro. Por estas paragens, as pessoas e o seu bem-estar, em primeiro, sempre. E por lá não tem morada o stress nem nenhuma outra palavra que contenha dentro impressões de negatividade.

Não. Não era uma mentira

Dia 1 de abril, outro telefonema. Agora, da empregada do hotel, para me dar as indicações de como proceder. Não era só o Dia das Mentiras. Era também, em Portugal, o dia de Páscoa. Atrás do meu telefone e do telefone da empregada que iria conduzir a conversa, o Manolis grita um alegre “Hello, Katerina!”

É tudo tão simples que emociona. Obrigada, Manolis! Quem sabe não aceito o convite de conhecer a vossa piscina nova com vista para os deliciosos cocktails que te propuseste fazer numa visita no calor que se avizinha?…

O hotel Faros Apartments

Como contava nesta ilha fazer-me andar de carro, que aluguei durante dois dos quatro dias em que fiquei na ilha de Milos, decidi não ficar nem no porto, Adamantas ou Adamas, nem em Plaka, centro antigo da cidade, nos píncaros da ilha. Fiquei, portanto, na parte norte da ilha, a meio caminho entre a ponta este, a conhecida vila de pescadores, Pollonia, e a ponta oeste, dos lindos pores do sol, Plathiena. Em mais um alojamento familiar, de que tanto gosto. O hotel é tipicamente grego.

De fachada branca, branca, propositadamente a fazer contrastar as buganvílias que brotam dos muros das varandas dos quartos abrigadas pela sombra dos tetos de madeira clara. As portadas das janelas são azuis, a lembrar o mar, que está lá em baixo. Aqui, estamos a meia altura, entre a baixa elevação do porto e a mais alta elevação do centro antigo. Nada como ficar em meios e poder contemplar o todo.

Por lado direito, a fachada tem a receção do hotel. À entrada, uma grande mesa de madeira e bancos, aguardando que todos os cantos do mundo ali se sentem para uma conversa com o Manolis. Dentro da receção, fresca, um banco de canto forrado de restos de tecido, fazendo lembrar os nossos tapetes feitos da junção de restos coloridos. Também em Ios havia encontrado esta estratégia de forrar bancos e sofás. Cria caminhos de cor lindos e imaginários. Lá atrás, as entradas para os alojamentos e o enorme estacionamento a terra batida para o meu carro azul a dois tons turquesa.

A minha casa-veleiro

O meu studio ficava um pouco abaixo do rés do chão do hotel, na descida a caminho da não profunda cave. Assim também ficam os dormitórios dos veleiros. Em baixo. Foi o Manolis que construiu o hotel, pouco a pouco, e todas as engenhocas são artimanhas dele. E tudo lembra um veleiro no mar da Grécia.

A cama de casal fica ao fundo e em cima. Em cima, sim. Para lá chegar, é preciso subir umas escadas de madeira. A cama está apoiada em troncos de madeira com suas seguras imperfeições. Em baixo, o sofá largo e comprido, também em cima de uma estrutura de madeira, fazendo lembrar outra cama. Tudo branco, branco, branco. A mesa, pequena, para a igualmente pequena cozinha, era amarela, a meia altura, e tinha rodas. A iluminação, essa provinha de dentro de candeeiros embutidos na parede, iguais aos que encontramos num qualquer veleiro. Há muito cuidado aqui dentro. Há pormenores de amor. Há pormenores de cor.

A casa de banho, grega, portanto. Branca e cinza. Toda aberta, toda livre. Não há separação alguma entre a zona do duche e as restantes. Tudo se molha, tudo se lava.

O Manolis esculpiu o seu hotel qual artesão esculpira a estátua Vénus de Milo, encontrada na ilha, em 1820. A estátua fora descoberta sem braços. No hotel do Manolis, há braços e abraços.

Mais sobre Milos e o Manolis aqui:

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