Praia de Mandrakia

Milos | Sarakíniko, Firopótamos e Mandrákia, o círculo perfeito

Às 5:27 exatas, estou sentada ao volante do meu Chevrolet Matiz, que muito carinhosamente apelidei, logo ali, de Chevrolet Matias. Reservei-o pela boca do meu querido e divertido Manolis, dono do meu hotel, Faros Apartments, que me recomendou a Rac SA Rent a Car Milos, no porto de Adamantas ou Adamas, e quem com eles falou pedindo o carro mais jeitosinho apenas para mim e para te caminhar, Milos! Para aluguer de carro, moto, motox4, são várias as casas existentes logo no porto. De notar que eu cheguei a Milos no dia 31 de julho sem reserva e tinha muitas opções.

Tiro uma fotografia ao computador do meu carro para medir o depósito. Tem dez anos, mas um corpo bastante envelhecido. Fora a sua experiência rodada que me embalou nos dois dias, de sul a norte, de oeste a este, mesmo em terreno de terra batida. Desta pérola que tinha quatro rodas e bebia gasolina e me calhou por destino e não por sorte, falarei, numa bonita dedicatória, que caberá noutro post.

Tenho dia por mais umas cinco horas de luz e um calor sem tempo, que me acompanharão a três praias na zona norte e oeste da ilha. Para norte, é muito fácil fazer estrada. Não há que enganar. A norte da ilha os caminhos desenham um triângulo. A estrada do hotel é uma delas e leva para norte e torna a levar para sul. Para norte, segue para este e irás dar a Pollonia. Segue para oeste e irás passar por uma via-sacra de praias lindas. No caminho permite-te subir e irás a Plaka; permite-te descer e irás a Klima. Seguindo sempre até aos confins da ilha, há um pôr do sol que é bom vermos quando estamos muito tristes. Fizera-me esta bonita metáfora do triângulo o Manolis, antes de eu arrancar a buscar o meu fiel companheiro daqueles dias.

Vou para norte, para o vértice oeste. Uma amiga estivera nesta ilha umas semanas antes. Trouxera dentro um encanto por ela que eu compreendia bem. É, afinal, a minha Grécia. Mas nunca havia imaginado que beleza a fazia mover os lábios e abrir os olhos…

Sarakíniko, a praia que é a Lua

Estou na Lua…

Sarakíniko fora o primeiro impacto desse encanto. Corto à direita, saindo da estrada principal que leva para Plaka. Sigo em direção ao mar e, assim, a Sarakíniko. Desço um caminho cheio de poeira branca, plantado no meio de montes brancos. Quanto mais desço, devagar, roda ante roda, em bamboleio, mais me sinto entrar na superfície da Lua. Um terreno seco, árido, branco, branco, irregular, que estende corpo até ao mar. Abandono o meu carro cá em cima, tendo já descido alguma coisa. Há mais que descer. Há mais que ver. Tudo o que julgamos estar ao nosso alcance é, na verdade, um engano do olhar? Devemos caminhar, explorar, descer, contornar, parar, rodar… Embrenhei-me na descida do corpo desta Lua que todos os dias abraça o mar Egeu. Os seus montes sobrepostos de branco estão rasgados, com grandes fendas, cuja profundidade é possível palmilhar. Há pessoas espalhadas por todo o seu corpo e de todos os ângulos do seu corpo é possível chegar à água.

Praia de Sarakíniko
Sarakíniko, a praia Lua

Lá em baixo, há um braço de mar que cumprimenta a terra e em sua volta corpos humanos estendidos de cor. Só agora percebo que esta água daqui têm uma consistência barrenta de branco. É uma espécie de calcário que se desfaz por contacto com a água, ou uma lava de gelo, como a ciência lhe tem chamado. Entrando neste braço de mar, a sensação é termal. Água muito quente, turva e até espessa, que se torna em água mais fresca, mais clara e sem espessura. Um azul… Lá à frente, um veleiro, outro. Deles se atira gente para refrescar o corpo. Cada lateral deste braço é uma montanha branca. Caminhem nesta brancura, explorem. Há crateras, buracos abertos nesta Lua para dentro dos quais é possível mergulhar. Nesta zona, a água tem frescura, muita. Como fresca está a minha alma.

Praia de Sarakíniko
Montanhas de calcário frescas
Praia de Sarakíniko
Ilha a oeste

Estou de novo lá em cima, na ponta oposta àquela por onde havia descido. Olho o mar. Olho a oeste. Percebo que a Lua se estende. Não sei ainda o que está desse lado. Ainda. Olho a este. Alguns veleiros à boca do braço de mar. Não fiquei muito tempo. E todo o tempo que fiquei estive entre a água e a Lua.

Portas de sombra

 
Praia de Sarakíniko
O mercado

Não fosse suficiente esta praia ser a Lua ainda tem dentro um mercado antigo, que fora esculpido para resguardar do sol que rasga a pele. Entra, explora. O braço de mar estende-se até tocar a areia. É nesta zona, mais atrás, que estão esculpidas pequenas portas de sombra que não revelam o que dentro habita. Quero descobrir caminho. Está um calor que ronda os 40 graus. Subo para o meu carro. E faço o que muitas vezes me controla o instinto. Páro e olho para trás. Engulo um grande trago de Lua e reencontro o meu Matias.

Firopótamos, a praia do meu pescador

Porto de Firopótamos
Firopótamos em raios de sol

Volto ao caminho principal que segue para oeste, para Plaka. Volto a cortar à direita, mar abaixo. Deixo para trás a praia Mandrákia. Lá irei. E lá jantarei. Entro numa estrada de cimento estreita, com momentos de pique e bermas de terra e pó cor de tijolo. Largo o carro. Mais uma vez, não poderia imaginar o que os meus pés iriam dar aos meus olhos. Firopótamos, uma pequena vila de pescadores de vistas de encantar. No pequeno monte, casinhas brancas, sobrepostas, amontoadas, cuja porta de entrada partilha o espaço com a rua, que desce para o mar baixo, que pouco sobe. Lá em baixo, os barcos de madeira e de cor, as redes, as boias, os remos, os motores. Ao rés da água deste porto, várias casinhas com portas de cor, algumas guardam ainda a parafernália da pesca. Outras guardam gente em férias. Não há cá quase ninguém… Nem na praia de areal pequeno que dali se avista a poucos metros.

Agios Nikolaos
Voltando à estrada, que ali termina, percebo que dela se inicia o caminho para uma pequena igreja, Agios Nikolaos. E atrás dessa igreja uma janela enorme feita de pedra, em ruínas, a olhar o mar. Por ali andei. Sou de explorar. Sou de sentir. Sou de corpo. Neste cirandar, vejo-me estática há algum tempo e sento-me nas costas de um cenário lindíssimo, que nunca soube que eu ali estivera.
Porto de Mandrakia
Firopótamos, porto ao rés do mar
O meu pescador

Eu tinha os olhos vidrados no método daquele pescador à cana, que a recolhia, que a preparava para mais um lançamento naquele mar espelhado pelo sol. Lá em baixo, um barco de pesca vermelho. Mais além outro, um miniveleiro em família. Estava tão absorta nesta imagem e na bravura tranquila daquele sol, que só mais tarde vi que o meu pescador tinha por companhia um pequeno cão branco, que, neste exato momento, havia decidido mexer-se. Eu o havia mesclado com a parte de terreno branco daquele monte que também era tijolo. O cão, esse era familiar bem afastado do fiel amigo do Tintin.

Porto de Firopótamos
Firopótamos, o meu pescador e o seu cão, irmão do cão do Tintin

Mandrákia, o porto aonde vive gente

Volto a subir, que a praia de Mandrákia vem já. Recupero o meu caminho principal, mas volto para trás, para o vértice este, porque havia decidido andar em círculo para jantar no tão afamado peixe que aqui se cozinha.

Mais um pequeno porto, azul, raiado de faíscas de sol que já desce, sarapintado de cor, coloridos os barcos, coloridas as portas das garagens construídas ao rés do nível da água para guardar os pertences da pesca. Tão comum, tão simples e, em igual medida, tão bonito. A vila, essa é mais rasteira do que Firopótamos; seus muros, brancos, bordados de azul. Há homens da faina, que, sentados, remendam as suas redes. E olhando melhor percebo que há um estendal na varanda de uma das garagens. Estas garagens guardam gente, não carros, não barcos, ou arrumos. Há desenhos nas paredes; há cadeiras de madeira de cor. E algumas pessoas refrescando o corpo. Como bandeira de boas-vindas, um barco em miniatura de cabelos de rede de pesca. E sempre, em sua guarda, uma pequena igreja ortodoxa. Há que dar graças ao mar. Há que agradecer pelo hoje que antevê o amanhã. Atrás da igreja, uma espécie de minipontão ou miniporto, mais mini do que o anterior.

Praia de Mandrakia
Mandrákia, o porto

O estendal de polvos

Ali ao lado, conseguia eu ainda avistar o corpo da Lua que se estendia para este lado oeste. Daquele lado, aonde estive na Lua, não dava para ver a vizinha Mandrákia, porque ainda havia mais Lua para caminhar. Deste lado, algumas casas habitadas, brancas, baixas, muito pequenas. Outras, algumas coloridas, abandonadas. Servem apenas para dar varandim a um estendal de polvos. É que por cá, na Grécia, há muito e bom peixe, e assim também polvo. E é comum que se veja o polvo a secar por todo o lado, em estendais montados à frente, atrás do restaurante, na orla do mar, na marginal, em todo o lado, desde que apanhe sol. Secando o polvo, este fica mais tenro para que diretamente se possa assar. E é tenro. É. E é muito bom. É.

Porto de Mandrakia
O polvo do estendal

Seria, pois, o polvo do restaurante vizinho, o Medousa. Um encanto, de vista, cheiro, sabor e camaradagem. Havia muita gente para jantar. E também gregos. Eu, sozinha, consegui uma mesa imediata, com vista para a Lua. Todo o restaurante era aberto. Apenas a cozinha resguardada. O chão era cinzento em círculos de brancos. As mesas, de pernas azul-escuro e tampo de pedra branco. As cadeiras, azuis ou verdes-água. São 20:21 de muita luz e de muitas camadas cor de laranja no horizonte.

Praia de Mandrakia

Não esperava que numa parte de uma tarde vivesse locais tão simples. Talvez do mais simples que vivi ao longo destes meus dezanove dias em viagem. E mais uma vez aqui sinto tudo e que é possível que a beleza emocione.

(31 de julho – dia 1 em Milos, Grécia)

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