Naxos

Naxos | Hotel Pantheon, mesa onde há amor, corações fartos

– Vem jantar connosco, Katerina. Convidei também duas amigas gregas que estão cá, mas têm planos com amigos, e o Fahad, que chegou hoje e cá fica apenas esta noite, 24 grandes horas apenas. Vem.

O Vassili, do Hotel Pantheon, no centro da ilha de Naxos, sempre afável e grande comunicador, convidou-me para jantar em sua casa com a sua família. No dia 23, às 21h, desço do meu quarto para a sala-receção, que será os aposentos do nosso jantar. “Vassili, venho cedo, não venho?” “Sim, ainda não estamos preparados. Volta daqui a uma hora.” À hora grega, 22h, portanto. Estou de volta. Entrei. Todos comem já. Peço desculpas imensas mas fui acolhida por rostos de carinho. Sento-me à frente do Vassili, que tinha ao seu lado a sua mulher.

Ao meu lado esquerdo, o Fahad, hóspede paquistanês que vinha numa visita curta, e, a seu lado, a filha do Vassili e da Mairibi, mãe dos pequenos, que brincam no chão de madeira. Há ainda uma ou outra cadeira vazia, que espera o filho que virá de férias nuns quinze dias próximos. Faz doutoramento em Londres. É engenheiro mecânico. Estuda grandes construções que são pontes.

Pratinhos de cor

A mesa estava picotada de pratinhos de cor, cada um com seu manjar. Era de arregalar o sorriso. “Tudo é simples, mas muito bom. É isto que queremos na vida.” É. E logo me enche o copo de vinho.

– Katerina, é vinho verde caseiro feito por um amigo. Bebe. Estas são as melhores batatas do mundo, este peixe frito, de dois tipos, é de mar e fresco, salada grega com queijo feta naxiano menos espesso do que o comum, pão. Come.

Tudo preparado pela querida Nina, empregada de longa data da família. Vinte e cinco anos já. O marido trabalha nos barcos. Os dois filhos estão no México a estudar em escolas boas e privadas. Comida onde há amor…

Falámos sobre coisas simples, tão profundamente sentidas. Sobre nós, as nossas coisas do dia a dia, vidas, família, amigos, empregos, a história da família da Mairibi e do Hotel Pantheon. Falámos.

– O que importa é isto, as coisas simples. Esta comida é tão boa, tão barata, estamos aqui à conversa. Para que serve o dinheiro se só nos faz querer mais e com ele já não comes, mastigas? É apenas o ato de comer.

É. A comida fora o nosso metro hexâmetro dactílico para os versos ora longos ora breves da nossa conversa. A amabilidade e a simplicidade em gesto, em palavra, em olho, em tato, em corpo que ali recebi tornaram-me pena leve, se leve não estaria já. Em qualquer recanto, há familiaridade, amizade, carinho e boa palavra. Tudo depende de nós. Todos estávamos cheios do que ali havia sido partilhado por cada um de nós, do que ali nos predispuséramos a receber de cada um.

O Vassili fazia questão de nos guarnecer pratos e copos. Nada nos falta. Cheios os nossos pratos, cheios os nossos copos, cheia a nossa sala, cheios os nossos corações. Duas horas de jantar, levantamo-nos seguindo a recomendação do Vassili: é uma boa hora para irem beber um copo. Mesmo aqui atrás, há um bar de jazz com bons cocktails. Há. Já ouvira falar dele. Vamos. No recolher das cadeiras, o Vassili disse-me:

– Katerina, eisai poli omorfi, you have a clear and a very honest face. Your face tells the truth. You are my type of person, your smile… I’m sure you are a person we can trust.

Acrescentou um enorme agradecimento por termos aceitado o seu convite. Por lhe termos enchido a sua noite de alegria e companheirismo. Ter uma vida boa e plena é isto.

O Vassili não me conhece, mas viu-me. Este é o caminho. Saí dali tranquila e segura, no caminho certo até ao bar, acompanhada pelo querido Fahad.

Naxos

O Fahad 

A dez minutos conversados, sentámos num banco de jardim, lado a lado, na esplanada do bar Jazz & Blues, que sita na barriga de uma das muitas ruas estreitas em labirinto de não mais de um metro, ao lado da igreja ortodoxa, antiga, muito, e que, aos bocados, se desfaz.

Iluminados pelas velas das mesas e aconchegados pelo ar quente da noite, sem brisa, pedimos cada um uma bira (cerveja) grega. Uma Eksa. Até então eu ia sempre para a Mithos. Corpo alto e espadaúdo, pele morena, dedos compridos, cabelo preto e olho de mel, lábios finos e rasgados de um sorriso verdadeiro que se espraiava até aos olhos.

– Vim até aqui a correr. Faço algumas paragens pequenas porque quero aproveitar a Europa antes do regresso incerto para a Austrália.

– Mas não vives em Londres?

– Vivo. Há dois anos. Fugi com a minha família do Paquistão por tudo aquilo que se lá vive. Não faz sentido. Matar por fanatismo?… Foi-me dada a oportunidade de estudar na Austrália, na Universidade de Sidney. Mudei-me para Londres depois de terminar o curso para trabalhar e porque queria muito conhecer a Europa. Já não tenho tempo para ver tudo. Corro, corro, mas não consigo. Talvez volte para a Austrália e depois novamente para a Europa. Mas não voltarei mais ao Paquistão. Não depois de ter visto e sentido que é possível viver num mundo justo e equilibrado.

Vi muita doçura, muita alegria

Balanced foi a palavra que mais repetimos naquela cerveja, que adicionou outra e outra. Dá graças por lhe ter sido dada outra vida, outras realidades, outras ideias e, sobretudo, por ter confirmado que era possível viver bem na diferença, que era possível ser melhor existindo diferença. Por sentir, todos os dias, que é possível. Nunca aqui em palavras colocarei o brilho dos olhos de quem é grato por ter sobrevivido a uma guerra sem sentido, de quem é grato, acima de tudo, por ter presenciado que é tão grande o bem do mundo, lá fora, do outro lado das suas fronteiras. Nunca lhe vi amargura no olhar, raiva alguma aportou àquele rosto, tristeza por não estar no seu país de origem. Vi muita doçura, muita alegria, muita vontade de descoberta, de conhecimento. Eu sou mais ouvidos do que boca: “Tu tens nas mãos a compreensão de um mundo que jamais irei abarcar, um sentido de liberdade que nenhum livro me irá rezar, que nenhum avião me fará alcançar.”

O mundo novo

À nossa conversa também chega a memória curta de uma Europa que deita nas sarjetas, pela segunda vez, os corpos ceifados pelos fascismos de há poucas décadas. Eu sou fruto de uma liberdade de quem calou a boca. Sou esperança de quem se escondeu de um futuro que não valia a pena. Sou prova de que o presente tem todos os que calaram a boca, todos os que se esconderam e de que ainda há caminho a percorrer, sempre, mas usamos as portas da liberdade sem cuidar das suas fendas, da tinta que estala, dos rangidos das dobradiças cansadas de mais fechar do que abrir, sem olhar quem por elas passa.

Compreendi que a pressa dele não era conhecer a Europa. Compreendi que a sua corrida não era pelo medo do que não veria, tão tenra era a sua idade. Compreendi que a intensidade da sua vida era a mesma que tinha em gratidão dentro de si. Corria para agradecer e para ser e dar o melhor de si ao novo mundo que se abrira transbordada a sua fronteira umbilical.

Bar Jazz & Blues

Chora, Naxos
Mapas, pintados à mão, espalhados por Chora, centro de Naxos

Não deixo aqui morada alguma; deixo um mapa à moda da ilha de Naxos. Há vários espalhados por Chora e são lindos! Sigam o caminho, apenas. Deixem-se perder, apenas. Como se fora um jogo, uma qualquer brincadeira. Devem procurar o ponto vermelho. É aí. Do lado direito do ponto, considerando este mapa, encontram uma igreja minúscula e caduca. No meio, uma das entradas para o Velho Mercado. Nesse ponto, abre-se uma pequena praça, e aí fica o bar, algumas mesas e cadeiras e uma grande árvore que dá sombra na noite quente. Tem cocktails muito bons, segundo me dizem, mas eu sou de cerveja. Se continuarem para esses lados depois do bar encontrarão vida noturna.

Chora, Naxos

(Dia 2 para 3 – noite de 22 para 23 de julho, domingo, Naxos – Chora)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *