Porto de Naxos

Naxos | Hotel Pantheon, uma casa cuja porta é o coração

Ruas caiadas, construídas a metro de largura, cobertas por telhados de madeira ou de buganvílias. Paredes sarapintadas de comércio em cor apenas para inquietar a tranquilidade do branco. Branco. Branco. Chão que tão calmamente sobe a degraus espaçados montanha acima vestido de pedra cinzenta, cujas juntas foram pintadas em danças de branco. Mais à frente, o meu Hotel. A ele me fará chegar um pequeno patamar de escadas que uma porta em arco fez abrir. É no primeiro andar que fica a receção. Em baixo, instalações esquecidas, não fosse um grande poster com uma mulher a espreitar deste mesmo arco, muitos anos antes, que em grego já dizia “hotel”, que também seria o meu panteão.

O meu anfitrião, o Vassili

Fui recebida pelo Vassili, O Grande, pela Mairibi, conhecida atriz de marionetas em Atenas, e os seus dois netos, a Daphni e Vassili, O Pequeno. No primeiro andar do velho edifício, fica a sala particular que se desdobra em receção deste hotel familiar. Todos me recebem com sorriso, mas é o Vassili, grisalho, pele morena, estatura mediana, pernas arqueadas, olhos vivos e curiosos, sorriso aberto em palavras de carinho, afável como um pai preocupado e um verdadeiro avô, o meu anfitrião. Fez as honras da casa na receção-sala do hotel que é a casa deles.

Num inglês que só os gregos sabem soletrar, pergunta-me como foi a minha viagem, de onde venho. Tenho a alma a sorrir. E o Vassili viu-a. Pede-me para me sentar e que descanse um pouco. Assim faço. Nunca recuso ser acolhida numa casa cuja porta é o coração.

Fui recebida com figos da terra

Eu também veria o Vassili mais tarde. Vai à cozinha. Eu contemplo esta sala-museu ampla. Ao fundo, uma mesa de jantar numerosa, Mairibi no sofá e os netos a brincar no chão. Aqui viveu gente há muito tempo. O chão e o teto são de madeira, paredes brancas acastanhadas pelos móveis de madeira, lindos, e de muita vida, e pelos rostos dispostos em molduras. Fui recebida com figos da terra, os vassilis, que em português se traduz por figos-rei, na verdade, os nossos figos de mel; depois mais dois, estes secos pela Mairibi ao sol, e água. É o resultado do meu arregalar de olho! Recusei o café, que me espera a cama, que fica exatamente por cima da minha cabeça. Que jantar este meu… Bom, bom.

O Vassili faz-me companhia à mesa e conta-me a história da família e do Hotel Pantheon.

– Há poucos anos, recuperámos o hotel e demos-lhe o nome de Hotel Pantheon. Abrimos na época do verão para podermos receber e conhecer gente. É isso que importa. Familiares da minha mulher fugiram da guerra para aqui. Compraram este edifício do século XV com o dinheiro que tinham. Da parte de cima, fizeram um hotel para terem um rendimento, e hotel será. Em baixo, era a sua casa. Tem tanta história e sacrifício que queremos continuar a honrar a família.

Senti-te bem, Hotel Pantheon

Percebi por que razão se chamava este hotel-casa-museu panteão. É que ali viveu uma família ilustre pelos seus feitos de bravura, coragem e resistência. Um pequeno hotel para dez pessoas e para tão grande experiência. Escolhi-te por seres o mais antigo da ilha e por te perderes no meio do labirinto que é a cidade velha de Naxos. Escolhi-te e senti-te bem. Estou de alma gorda, agradecida por o que quer que me tenha metido nesta odisseia, de olhos, nariz, orelhas, boca, tudo levantado em grande curiosidade.

Vim sozinha, mas não estou sozinha. Nem sou sozinha. Uma coisa é certa. Volto acompanhada para Lisboa. E ainda estou no primeiro dia, que nem um dia inteiro perfaz. Viva, Hotel Pantheon, uma das muitas casas-museu dentro do Labirinto de Naxos e do Velho Mercado.

Hotel Pantheon ♣ Hotel Panteão

Os quartos

No lugar da televisão, há janelas para o mar, para o porto, para o templo de Portara, para o pôr do sol. No lugar de ar condicionado, há uma ventoinha. No lugar de internet, há tempo e nós. Há-a, mas nunca a consegui apanhar no quarto. Não chega lá acima. Circunscreve-se à sala-que-é-receção para fins do negócio familiar, apenas.

Tudo é simples, simples, e, na mesma medida, lindo, lindo. Quadrados brancos com envolvências de cinzento. Do meu quarto, podia saltar a janela e ir para o terraço. Muito me sentei no teu peitoril. Às oito da noite, aquele pôr do sol laranja que se põe atrás de Portara. Lindo… E especial…

Casa de banho partilhada

No corredor que leva aos quartos, há uma casa de banho partilhada. A um canto, o chuveiro aberto. Casa de banho grega é isto. Não há nada a cobrir a zona do chuveiro. Nada a separá-lo das restantes áreas. Tudo se molha. Tudo se limpa. Tudo se regenera. E eu vim à procura desta beleza que se chama simplicidade, que se chama experiência local e grega, um verdadeiro hotel familiar.

Centro de Naxos
Centro de Naxos
2 comments
    1. Querida Margarida, é muito importante para mim receber feedback das vossas leituras. E a sua foi especial 🙂 É uma grande motivação para mim seguir partilhando a minha Grécia. Espero continuar a inspirar em palavras!

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