Centro de Naxos

Naxos | O-homem-que-iluminava-a-igreja…

Como não raras as vezes faço nos meus caminhos, paro, rodo o corpo e contemplo o que só as minhas costas viam. Uma série de formas coloridas em luz de néon rodopiam sobre uma pequena igreja ortodoxa. Num dos cruzamentos subindo do Velho Mercado para o Castelo, no centro de Naxos, feito das estreitas ruas cinzentas pinceladas de branco, estanquei no labirinto de dúvidas, tentando perceber o que era aquilo. De onde vinha aquele bonito, e infantil, aparato.

A minha figura

À minha esquerda, uma casinha típica, de esqueleto de rés do chão e primeiro andar, pele branca e rosto em varandim de madeira pintada de azul. Ao leme, acaba de chegar uma figura muito morena, franzina, cabelos grisalhos que roçam os ombros, barba em pandã, justa ao rosto. Por vestes, uma batina de tecido crepe azul com mangas laças douradas. Nos pés, umas chinelas de duas tiras. Tudo brilha na noite daquela varanda. Fossem a barba e o cabelo mais compridos, tivesse ele um cajado na mão e seria o mago das histórias medievais. Que espectro vejo eu? Quem és tu? O que fazes? O meu alquimista olhava para a sua invenção de forma brilhantemente orgulhosa e perfeita. Viera à sua varanda tomar o leme e verificar que as suas velas estavam dispostas no sentido do vento quente refletindo sobre a pequena igreja ora corações cor-de-rosa e amarelo-esverdeado, ora estrelas cor-de-rosa e amarelo-esverdeado, muitos e pequenos. Ao saber-me ali a contemplá-lo, sorri para mim com o dever cumprido… “Boa noite, Alquimista“. Não troquei com ele nenhuma palavra mais. Consigno à minha imaginação as motivações daquele homem. Até hoje.

Eu já vi esta casa… Já aqui passei à luz do dia.

E já a havia mirado bem. Toda ela é um verdadeiro arraial plantado. Tudo pintado a pormenor, desde o vaso ao prato que o sustenta, há lanternas, várias, dispostas no chão, penduradas no teto da varanda, cabaças dispostas na parede, flores de cor em cor. E um sistema de projeção de alegria que viria a descobrir esta noite. Casa em esquina numa das ruas que da esquerda vem do porto, que da direita vem do labirinto e do lado de Portara, e nesta em que me encontro, que sobe para o Castelo, é preciso receber bem todos os que aqui se cruzam. Esta história podia estar n’O Principezinho.    

Segue a música

Retomo o caminho subindo a rua para o Castelo-que-fica-algures-para-cima com a história d’O Principezinho na boca. Parei, de novo. Eu era o Principezinho… Acabara de conhecer o homem que acendia candeeiros. Acabara de questionar a utilidade daquela função. E acabara de ver no sorriso daquele homem grisalho que a sua ocupação era muito bonita. “E verdadeiramente útil, uma vez que é bonita.” Engulo em seco uma batida bem forte do meu coração. Muitas vezes, as questões devem ficar deste lado, no nosso pensamento. A elas, o tempo, às vezes minutos, trará as suas respostas. E que respostas… Há coisas que apenas existem para nos lembrar de que há coisas que apenas existem para nos lembrar de que existimos e que, existindo, precisamos de sentir sem razões, sem compromisso, e que no caminho das coisas do coração até ao lugar das coisas da razão nos perdemos no nada.

Espero que nunca se acabe a tua profissão, que nunca se acabem as coisas bonitas. Espero que nunca se acabem aqueles que apenas fazem coisas bonitas porque é bonito. Espero muitas vezes lembrar-me de que me esqueço de contemplar as coisas bonitas em que todos os dias tropeço, porque todos os dias as tenho, as vejo, as cheiro, as ouço, as toco, as saboreio.

Centro de Naxos
Labirinto de Centro de Naxos

desCaminhos

Continuo caminho nas ruas estreitas, acolhedoras, chão agora pastel ladeado de branco, com pormenores de surpresa, recantos de quintal, varandins com cabelos longos de buganvílias, que sobem e seguem a música, que agora ouço ser grega. O homem-que-ilumina-a-cúpula-da-igreja é, seguramente, tantas vezes desprezado por aqueles-que-julgam-comandar. “E, no entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez por se ocupar com outra coisa para além de si próprio.” Podia ser meu amigo, afinal, o meu planeta é grande, mas o meu leme está nos caminhos do nada. O dele está direcionado e certeiro para o outro, e para mim. Apenas precisas de ti e da tua cúpula para iluminar e colorir. Tu comandas.

Não fui ao Castelo. Não fui naquela hora, não fui mais. Voltei a parar. À sua entrada, dois rapazes tocavam. A seu meio, uma mulher, também jovem, cantava. Dedilhadas de sons tradicionais gregos. Tinham por cenário as muralhas do castelo, iluminado pela lua cheia, e por auditório não mais do que dez pessoas. Umas descem, param e seguem; outras sobem, param e seguem. Eu perdi o movimento. Depois, a noção do espaço, a visão… “O essencial é invisível aos nossos olhos.” Nunca deixei de ouvir. Cheguei depois da hora marcada ao jantar com a família do Vassili, o meu anfitrião de Naxos, e com o Fahad, que corre para abarcar o mundo todo.

(Noite de 22 para 23 de julho, domingo, dia 2 em Naxos – Chora)

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