oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais

Oía | Volto a Santorini entre dois quintais

Volto a Santorini com a mesma vontade com que me embrenho pela primeira vez num local nunca por mim pisado. Mas esta vontade já não é virginal. É como se a tivesse visitado através de uma história contada pela boca de alguém que cumprira esta odisseia no passado com tal pormenor que só os lábios desenham tão perfeitamente. Esse alguém fora eu. Pela primeira vez, volto, revivo um local. Volto entre dois quintais que não fazem boa vizinhança. De um lado, o receio do arrependimento fatal por perder a imagem genuína deste lugar. É que a história que tenho nos lábios e contara a mim mesma vivi-a há 14 anos, sem a capa do crescimento do turismo. Do outro, o sentimento da grata reconciliação por ter voltado. É que agora os meus lábios levam outras verdades. Em que quintal me sentarei? O que colherei? Ervas daninhas ou flores renascidas na primavera?

Estou a abrir um livro para ler uma segunda vez. E é com essa mesma força que volto a folhear as tuas páginas, Santorini.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais

Santorini, a primeira vez

Naquele fim de semana corrido, último de maio, em que aqui estive, escolhemos meio dia inteiro para visitar dois dos quatro corpos fragmentados que se haviam separado da ilha-mãe há 3500 anos. Outrora, circular, hoje, ilha em U, despedaçada em apêndices com forma de nada, Santorini ainda abraça esses seus pedaços um dia desumbilicados. Afinal, Atlântida pode estar aqui.

Rosto em brisa, corpo ao badalo do barco que albergava poucas dezenas, amarámos a uns metros da costa em bocado de terra. Terra existente apenas para segurar a pequena igreja ortodoxa cravada em pedra-pomes, que, em contacto com o mar, produz uma lama enxofrada que pinta o castanho de um amarelo-ouro e ao corpo dá saúde. Estamos noutro fragmento da ilha-mãe, Palaiá Kaméni (Velha Kaméni).

A quem queira lamear-se que salte do barco e que a nado se dirija aos pés da igreja de São Nicolau. Nadar é o sacrifício a pagar para chegar a ela. Lembro-me de, após mergulhar, e enquanto esperava que a Paula o fizesse, olhar cada corpo, que, agarrado à beira do barco, nos contemplava em inveja, em tristeza, em medo, em altruísta coragem, porque, por alguma razão, não se faria ao mar. Lembro-me de aí agradecer à minha mãe que compreendera a minha vontade para aprender a nadar.

Toda ela vulcânica, ilha a três cores pintada, a vermelho, branco e preto, enche a barriga de lume Nea Kamena (Nova Kaméni), ilha em fragmento aonde habita apenas um vulcão. O calor que em mês de maio ainda não se faz sentir na quente Grécia, sente-se já aqui. Calor enjoado de enxofre. Calor de pés escaldados pelas entranhas da terra. O calor, enfim, de quem sabe e sente que abaixo de si, naquele meio mar, há uma barriga em germinação que parirá em tempo indefinido. Não farei agora de novo esta viagem. Mas tu fá-la-ás, que é imperdível.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais

Agora volto para voltar a Pyrgos, que não me sai do coração, por certo por algo que descobrirei agora. Agora volto para voltar a Thira, capital da ilha, e dali ladear o mar em cima de uma escarpa de tantos metros que não se podem contar, num caminho, nas arribas até Imerovigli, vila entre Thira e Oía. Agora volto para voltar a Oía, e finalmente ir a uma das dez livraria mais bonitas do mundo – dizem –, a Atlantis Books.

Cheguei à ilha ontem já hora de jantar se fazia, apenas nem dois dias decorridos da minha morada no hospital. Fraca em corpo; forte em espírito. Neste sábado, dia 28 de julho, não me levantei cedo para o calor da ilha, sabendo que dali emalaria ainda o tempo de autocarro, meu transporte de eleição, até Thira, mais o tempo de autocarro até Oía, que a todos faz saber sente um desconcertante pôr do sol.

No caminho dentro do autocarro faço outra caminhada. Preparo-me para o que não vou encontrar 14 anos passados. Não, não há preparação alguma que o coração não possa entender.

Oía, vila esculpida pela mão dos deuses

Saltei do autocarro em Oía em cima das 13h, do lado de cá da vila, do lado de onde não se vê o mar, de onde não se sente o vento quente em medo da escarpa, de onde não se vê o carrossel de ruas pastel que descem até ao mar, muralhadas por pequenas casas de de base branca e de uma aqui e ali rosa, amarela, laranja. Que o azul, esse é das cúpulas da casa dos deuses. Daqui onde não imaginaria ainda que os olhos que a iriam contemplar tinham ficado no coração na minha viagem em 2004. Tudo estava diferente, ainda que as mesmas ruas, as mesmas cores, a mesma força do sol e algumas lojas as mesmas, as mesmas buganvílias, o mesmo cheiro, os mesmos pontos em branco que têm vela e levam gente, os mesmos mostrengos que têm andares e são prédios do mar, as mesmas cúpulas de azul vibrante a olhar o mar e a bendizer os que este recebe.

Vou para o mar, sigo para a escarpa castanha enfeitada de casas empilhadas das fotografias dos postais que correm mundo. Para a minha esquerda, o caminho que a pé desembocará em Imerovigli e, depois de si, em Thira. Para a minha direita, o centro de Santorini. É por aqui. Está um calor abrasador, mas não me derrota. Não ainda. Sinto-me grata por pisar esta terra duas vezes numa vida que ainda conta muitos. E hoje que te escrevo tenho muita vontade de voltar a ver-te. Não me sinto nunca turista. Há uma qualquer síndrome que me aciona a minha parte grega que noutra vida tive. Percorro as ruas de metro em largo como se ali passasse todos os dias, mas vou como quem vai aos seu quintal admirar os novos rebentos. Paro, muitas vezes. Muitas, para respirar, apenas; outras, tantas outras, para sorver o ambiente doce que brota das lojas encarreiradas no labirinto das ruas tecidas pelo tear dos deuses.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais

Atlantis Books

Estou ainda no pico da vila. Só me embrenharei nas ruas que descem para o mar e para o velho porto depois de um regalo com a beleza da livraria Atlantis Books, tão pequena em tamanho, tão grande em expansão. É uma máquina do tempo, uma passarola voadora, tantos os livros que nos levam em suas asas. Cada sala tem forma de cúpula, e em todas muitos livros, muitas palavras e expressões de tantas paragens e línguas, no teto, nos parapeitos das janelas, nas cadeiras, desenhados, ora a tinta grossa ora a pinceladas. Há tanta informação que a minha cabeça rodopia do sul ao norte, do este a oeste, desenhando círculos perfeitos. Nunca para. Nunca para a minha admiração por quem fez destas salas a casa do Olimpo. Tenho a certeza de que era num espaço assim que Zeus reunia os seus súbditos para levar o bem ao mundo.

Pés carregados de futuro

Subi as escadas para sair da livraria em piso caverna e subi mais um até ao terraço. Acima das cúpulas de sonho, fica este terraço literário, aberto para o mar. Sentei-me à sombra num dos sofás a ler as mensagens que adornavam as paredes, as mesas, os bancos. É um espaço que convida à leitura de um livro que nos pesa na mala ou de algum oferecido por aquelas estantes brancas. Não trago livro nenhum na minha mala. Deixei-os em Portugal. Na minha mala, trago caneta e muito papel branco porque as leituras que aqui faço são outras. São as que me estão no corpo feito de brisa quente, nos pés carregados de quilómetros e de futuro, no regaço torrado pelo sol, na ponta dos dedos, no olhar arregalado, nas narinas bem abertas, no cabelo esvoaçante e desgrenhado. Estas são as minhas leituras. De um livro que abri pela segunda vez.

Estou de frente para o azul que é mar e é céu. Se abrir os braços e fechar os olhos, perco o chão para voar a ilha. Tudo isto é sonho, tudo isto é Santorini. Nos 15 minutos que ali estive, não esteve ali ninguém. Não vi ninguém porque não subiu ninguém. Em baixo, uma sala de passado cheia de gente. Em cima, um terraço de futuro comigo apenas.

Oía, a vila feita de peças de Lego

Desço as ruas quentes de cheiro perfumado com sentido nenhum. Desço até voltar a ver aquele moinho que já não roda. Daqui avisto o famoso miradouro, espécie de forte em ruínas, que alberga falantes de todas as línguas que aqui vêm ver o pôr do sol. A esta hora não há muita gente. Mas ainda assim mais gente do que há 14 anos em hora de ponta para olhar os tons raiados de amarelo e laranja a pintar o mar e o céu. Estivera neste mesmo sítio com lugar privilegiado uns anos antes debruçada para o sol. Não ficarei hoje para repetir o feito, mas subo ao miradouro. À minha frente, aquele azul vaporizado pelo forte calor. Aquele castanho avermelhado das ilhas que um dia se descolaram para estar sós.

À minha frente, a pequena ilha Thirasia. Aqui, há quem viva, no sossego de uma ilha que partiu só.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais
Thirasia, o pedaço maior de ilha que se avista

Baía Amoudi

Lá em baixo, a baía Amoudi, um pequeno porto piscatório de azul que só azul. Não desço hoje. Nunca até ele desci. Só o subira em 2004. Hoje não contarei tantas dezenas de degraus que montam a enorme escada. E também não estarei junto de um dos ainda lugares mais genuínos de Santorini. É a minha força, que ficou nos quilos perdidos em Ios, que lá não me deixa ir. Mas tu que me lês não deixes de deixar passo aqui. Não deixes de mergulhar neste lado da ilha que não tem muitos sítios para o fazer. Também cá há vários restaurantes que fazem jus ao lugar. Esta será a energia para tantos degraus a fazer de novo.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais
Baía Amoudi

Ainda estou no miradouro, atrás de mim, uma vila de peças de lego brancas de variados pequenos tamanhos, umas em cima das outras, num colorido quase sem cor. No lugar de telhados, há terraços que albergam o sol ou corpos. As estreitas ruas que se entre-cruzam a todos os poucos metros dão a esta imagem uma sensação tridimensional, que acentua a mais bonita peça que até hoje vi em Lego.

oia_volto_a_santorini_entre_dois_quintais

Inverto a minha marcha e embrenho-me por outras ruas que são miradouros para o mar e que dão para ruas que já pisara. Aqui nunca te perdes. Do teu caminho. Perdes-te nos recantos que abrem encantos. E há tantos, tantos, tantos. Sigo entre dois quintais.

Recomendações. Para ti e para mim

Viagens de barco

– Vulcão, ilhas da Caldeira, termas

É possível fazer vários tours a partir de 20 euros, com barcos a sair de Thira, quer do velho porto (Gialos limani), quer do novo e grande porto (Athinios limani). Há várias companhias a fazer estas viagens e vários pacotes, a zonas diferentes e de meio dia ou dia inteiro.

– ilha de Thirasia

Há ligação de barco para o porto de Riva, a partir da baía Amoudi, em Oía. Em apenas 20 minutos estarão do outro lado. Não há muitas ligações diárias. Chegando à ilha, há autocarros para que possam conhecer a ilha. Contudo, há tours que incluem visita à segunda maior ilha do hoje arquipélago de Santorini, que um dia foram uma só ilha. Esta nota que vos deixo, deixo-a também a mim, para uma próxima visita. Segundo os próprios gregos, dada a dimensão turística de Santorini, aqui ainda há muita tranquilidade e genuíno. Há muitos habitantes que não estão ligados ao turismo e arranjar alojamento aqui ainda é muito difícil. Também por esta razão, as casas e quintais típicos não deram lugar a alojamentos como em Oía e Thira, o que faz dela uma preciosidade em Santorini.

Descida à baía Amoudi

Não deixem de descer. De preferência ainda de manhã, antes das 10h. Fiquem a manhã lá em baixo, vão a banhos e fiquem para almoçar. Há vários restaurantes típicos. Não pensem que terão uma vista bonita para Oía. Não. Mas o pequeno porto é muito bonito. E caso optem por descer ao fim do dia, façam-no de modo que possam ver o pôr do sol ao rés da água!

Desçam e subam. Descansem quantas vezes queiram. E olhem, olhem muito. E respirem. É muito bonito. É possível chegar de carro, mas perde-se o sentido da montanha e da viagem. Tal como é possível subir de burro. Não o recomendo por razões óbvias. Em agosto de 2018, o governo grego criou leis para que estes animais fossem tratados com dignidade. Tal começa sempre por nós também. A subida é muito íngreme e longa. Se nos custa a nós, imaginem quanto custa ao animal que ainda leva gente em cima.

Caminhada pelo trilho marcado de Thira a Oía, passando por Imerovigli

Não se enganem. São, pelo menos, 2h30 de caminhada. Talvez 3h. No pico do Verão, o sol é abrasador e por isso aconselho a que seja feita ou muito cedo, bem antes das 9 da manhã, ou já perto das 18h. Ainda assim, estará muito quente. É normal que às 9h já sintam mais de 34 graus. Mas é possível. E vale a pena! O trilho segue sempre o mar, à sua esquerda. São raras as vezes em que lhe perdem o rasto. Está muito bem sinalizado. O trilho em Thira começa ao lado do teleférico. Para a ele chegar, sigam a indicação do Cable Car. A meio do trilho há um desvio que merece! Em Imerovigli, façam o desvio para Skaros, um grande rochedo, que mais parece a ponta de uma nau apontando toda a longidão da Grécia. Este desvio pode aumentar o tempo de chegada a Oía.

  • Levem água.
  • Levem comida. Não se esqueçam de que na Grécia se bebe muito café frio para se suportar tanto calor. De Thira a Imerovigli, há sítios para comer. De Imerovigli para a frente, nem tanto.
  • Levem ténis e protetor solar, sempre! Boné ou chapéu. Eu tive de comprar um na ilha de Ios, no meu quinto dia na Grécia. Havia esquecido da força deste sol.

Caso queiram fazer apenas metade, é possível fazê-lo a partir de Imerovigli. Também é possível fazer o percurso de Oía para Thira mas vão estar a fazê-lo de costas voltadas para a melhor vista.

Autocarros regulares de Thira para Oía e vice-versa

Uma possibilidade é fazer toda a ilha de autocarro com a companhia grega e pública KTEL. Está muito bem feito o sistema de conexões, criando uma rede rápida e ágil. Ao fim de semana, há MUITA gente. Recomendo que visitem a ilha durante a semana. Há muitos gregos a irem de fim de semana para as ilhas, esta não é exceção.

Cada bilhete é único, para uma viagem, portanto, e custa entre 2 e 3 euros. A ilha é muito pequena, pelo que não há nenhuma viagem que demore mais de 40 minutos a fazer, contando com as muitas paragens.

A central de autocarros é em Thira. Se estamos alojados noutras paragens, é muito comum que se apanhe o autocarro até Thira e aqui outro para o destino final. Contudo, há algumas ligações extra que não obrigam a ir a Thira. Por esta razão, é sempre bom perguntar ao bilheteiro se precisam de ir a Thira tendo em conta o vosso destino. É comum que se salte numa paragem a meio do caminho esperando autocarro que vem de Thira e por ali passa. Não me canso de dizer que não há nada como fazer conversa.

(28 de julho, dia 2 em Santorini)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *