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Perissa, uma montanha tão baixa para tão grande subida

Três dias depois de ter estado internada no Centro de Saúde em Ios, com uma gastroenterite (?), e no meu segundo dia e meio na ilha, arrisco subir a montanha de Perissa, vila a sul de Santorini, cujo perfil desenha um rosto, masculino. Lá em cima, 1.3 km depois, está o que resta da cidade Antiga de Thira, outrora a civilização mais importante da ilha, agora localizada mais para norte, mais para oeste, a Nova Thira. Gosto de pisar a história com o mesmo ritmo, a mesma cadência com que me lembro de pisar as uvas de outubro no lagar dos meus vizinhos, como o meu pai e os meus tios.

Saio do hostel, de costas ladeadas por aquele Homem de nenhures, cujo corpo medeia duas vilas de praia de areia em pedra preta e cujos olhos espreitam Creta e demais ilhas do sul do mar Egeu, ao Mediterrâneo.

Perissa, vila a sul de Santorini

Não olho mapa nenhum. Vou orientada pelo instinto da montanha. À minha direita, o mar; à minha frente, o corpo do Homem cada vez mais encorpado. Não encontro ninguém a não ser um dali a quem pergunto se estou no sítio certo para dar início ao trilho. “Nai. Nai. Apó’dó.” Sim, é mesmo aqui. Aqui, onde a terra é de aridez rude e rochosa. Aqui, onde há poeiras. Aqui, onde duas pequenas barracas dão sombra aos burros que levam homem acima, homem abaixo, quem não quer com seus próprios pés dar corpo à montanha. Aqui, aonde chegam os primeiros três burros que encontro no caminho. Quem levarão a seguir?

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Do lado esquerdo, frente à morada dos burros, duas placas de trilho. Primeiro sinal: Antiga Thira, 1.3 km (40m); Kamari, 2.9 km (1h20m). Segundo sinal: Profitis Ilias (1h40m); Pyrgos (2h40m).

A intenção não é grandemente ambiciosa. Trago, na algibeira, contenção e, no coração, tranquilidade. São 10h40. Está um sol abrasador. Ponho-me a caminho montanha acima. Sobe! Sobe, Katerina, sobe… Paro para me tornar consciente das minhas fraquezas. O sol queima-me o cachaço já bem escuro; aos lábios já não chega água; o brilho do sol impossibilita o discernimento da visão; os ténis brancos de fundo vermelho já não têm grande força para seguir nesse carreiro estreito, torto, íngreme, cheio de pedra pronta a rolar. Respiro; mais um trago de água e de oxigénio. À direita, esculpida na rocha, uma visão imaculada, branca, uma pequena igreja ortodoxa para que não nos falte o fôlego em espírito que nos guie a alma corpo acima. Não há sombra praticamente nenhuma no caminho. Estou fraca. Para baixo, meio caminho feito; para cima, outro tanto que nunca pus em causa não fazer.

Perissa, vila a sul de Santorini

A cada passada, lembro-me das nossas idas, muitas… Que saudade! Estou fora de uso. O que isto me custou fazer. 1.3 km até ao topo que há de ser o sopé que me levará à cidade antiga, debaixo dos já 36 graus em espelho da montanha. Um grande beijinho a todos. Estou em Santorini e pela Grécia andarei mais duas semanas. Espero-vos bem.”

Monto em palavras o que o pensamento falou. Ao CRASF (Clube Recreativo Anti-Segunda-Feira), de quem sinto saudades enormes e quem me guiou nesta jornada, em pensamento, vindo de todo o meu chão. Conheci-os em abril de 2012, numa atividade de escalada no Guincho por eles organizada. Com eles trepei as minhas agruras. Com eles aprendi que na parede a escalar há sempre mão, há sempre pé. As dificuldades da subida estão para os medos e as inseguranças com que os outros te sobrecarregam e que são, afinal, só teus.

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E subi. Estou cá em cima. Desidratada. Paro, de novo, e talvez não pela última vez. Sento-me ao sol. Um gole de água. Outro. Uma maçã. Estou em dieta forçada. Escrevo a mensagem aos companheiros do CRASF com o mesmo sôfrego com que bebo água. Vital. Subi com o CRASF mas não proferi uma única palavra monte acima, além de um Kalimera trocado com um dos guias de burros. A necessidade de verbalizar a sua companhia é visceral. Eles, que não sabem que me fizeram escalar.

A entrada na cabeça do Homem-que-é-montanha, local do antigo centro comercial e político de Santorini, é paga. Quatro euros. Está aberto de terça a domingo, das 8h00 às 15h00. É que às 15h00 o calor queima o discernimento.

O labirinto

Cá em cima estou, no meio do labirinto desenhado por muros em ruínas a meio metro de altura, outrora lares de família, esculpidos na rocha de calcário, zonas de comércio, zonas de discussão política, zonas de defesa e guarda, zonas de culto aos deuses, teatros, cemitérios. Outrora, cidade de gregos, cidade de romanos; habitada do séc. IX a.C. a 726 d.C. Piso o que resta de uma grande avenida que fora; vagueio sem rumo pela fortificação estratégica do povo do rei Theras. Estou no ponto mais alto da cabeça da montanha. Agarro o chapéu que o vento forte e quente quer fazer levar para onde se estendem as suas pernas, a vila de Pyrgos, que fica naquela direção. Aqui estou. Edó imé… neste miradouro árido. Lá em baixo, à esquerda, Kamari, para onde descerei após explorar o que resta. Lá em baixo, à direita, Perissa, grande parte do sul de Santorini. Lá em baixo, em frente, todo o mar azul que é teu, ó mar Egeu!…

Mapeada pelo que resta deste Monopólio completo, faço-me ao caminho de volta. Vou com a calma grega de quem não quer ir. São certos uns 38 graus. São. Não há corpo que não o sinta. Abrigo-me na sombra de uma figueira-mãe, sento-me no chão do seu regaço. Mais um gole de água. E uma barrita de sementes de sésamo e mel, tão típico e tão bom.

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Poucos os que se aventuram a pisar este território. Mas vale a pena. Desço por mais um carreiro. Lá em baixo, segurando a grande ravina, está a vila de Kamari, pontilhada a branco. É para lá que eu vou. São 11h40. Aqui, já fora das muralhas históricas, onde há um pequeno quiosque com mantimentos salva-vidas, sento-me à espera do minibus que arranca para a vila às 12h00. Sai a cada 30 minutos. Mais uma volta por 5 euros. É agora que partilho a mensagem que neste mesmo sítio escrevera alcançado o monte. Uma hora exata e perfeita após ter avistado o início do trilho que aqui me traria.

As pernas que me trouxeram não são as que me levarão. Fazer ambos os trajetos de autocarro? Subir de burro? Em honra da cidade antiga, também eu tive um momento de glória seguido por um de fraqueza. Nada como trilhar o nosso caminho pelo nosso pé.

Desço braço abaixo em estrada a pique de cimento e pedra. O teu corpo estende-se para Pyrgos. No teu braço esquerdo, rumo eu a Kamari. Pelo direito, trepei para ver o que os teus olhos fixam, para do alto da tua testa pensar futuro e sentir passado, para que da figueira do teu coração me possa esconder das minhas fraquezas, de novo. Sei-te e vi-te, montanha Akra Mesa Vouna.

Vês o perfil de um homem?

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2 comments
  1. Lindo. Até me arrepiei. Desidratada mas com um óptimo aspecto ?ainda bem que te ajudámos na subida. A mim também já me ajudaste em muitas subidas da vida. Bjs grandes e continua o bom trabalho aqui no teu cantinho ?

    1. Querida Ana, a Grécia tem muita força. Imagina tu o que é a força desta terra juntamente com a tua, com a nossa. Juntos, fazemos montanhas e juntas temos debruado bonitas e divertidas formas de as subir 🙂

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