Ilha de Naxos

Piso terra cimentada. É o porto de Naxos

Esta foi a rota que escolhi, sem saber que havia esta ligação picotada entre ilhas. Vou-me de Atenas a Naxos, de Naxos a Ios, de Ios a Santorini e de Santorini a Milos. Daqui, volto a Atenas, um regresso efetivo, ou afetivo. Sempre em viagens de ferry. “Senhores passageiros, estamos a chegar a Naxos, dirijam-se à parte inferior do barco e permaneçam na zona para peões.” Não obedeci, sem antes cumprir outro chamamento. Dirigi-me de novo à zona exterior do meu andar, para acompanhar as manobras de rotação do barco para se alinhar com o piso terrestre do porto de Naxos e logo depois escancarar a sua língua de grotesco ferro, que daria em poucos minutos palco à bonita confusão de saídas e entradas ao mesmo tempo de gentes do mundo, carros e motas particulares, camiões, carrinhas, autocarros, carros do lixo!, e eu. Já o fizera na ancoragem em Paros.

É de arrepiar, esta sensação de
finalmente chegar a terra!

É um retomar de vida, é um devolver do mar à terra, é um processo de iniciação, é o corpo a colocar em prática aquilo que o espírito recebeu em mar. Demorei seis horas para aqui chegar depois que saí do porto de Piraeus. Seis horas dolorosas. Já não sei estar comigo. Hoje sei que viria a ser a minha viagem de ferry mais luxuosa desta vinda à Grécia. Uma sala alcatifada cheia de cadeirões em pele. Também o bilhete mais caro. Sei hoje que este conforto não estava em harmonia com o desassossego que me fez vaguear corredores para cima, corredores para baixo. Preciso da Grécia como do meu aparelho respiratório, e encontro-me num completo desassossego para a pisar.

Estou há quarenta e oito horas cheias sem praticamente dormir. Talvez por isso tenha tido, neste ferry, momentos de epifania. São cinco da tarde de sol pleno. Debruço-me sobre o comprido corrimão branco salgado. À minha volta, naquele corredor, espraia-se gente no chão, sentada em cadeiras brancas de plástico, bebe-se vinho e cerveja, conversa afiada e animada de tantas línguas e de língua nenhuma. Desta dimensão gigantesca emerjo eu e enfrento o mar, cara a cara. O som da galhofa fica lá no fundo. Ouço os beijos do mar ao nosso casco. Ali não muito longe, pontos em fumo castanho que se elevam. São ilhotas de tamanhos e formas variadas. A Grécia tem mais de seis mil ilhas e ilhotas. Não se vive em todas. A palavra liberdade entra-me narinas acima por cada trago de mar inspirado. Estou hipnotizada. Nunca outrora havia sentido em mim tal estado.

Foram os beijos do mar em cadência.

Foi o cheiro macio do mar nos meus pulmões. Nunca me senti assim, tão livre, tão livre. Se há qualquer tipo de impureza no meu corpo, no coração que lhe dá corda, nas veias que o aquecem, nos pulmões que o arejam, na pele que o aconchega, tudo isso deixo aqui, neste mar de espírito, neste reinício. Tenho o meu pensamento a deixar entrar cheiros, olhares, toques, sons, alimento do coração. É tal a concentração e absorção que as lágrimas descem ao pescoço. É este o caminho. Não sei aonde me levará, afinal, mas é aqui que sinto estar. Em primeiro lugar. Em ida. Em desconhecido. Em surpresa. Em experiência. Em vagueio. Em mim. Se estiver em mim, tudo o que vier serei eu, enfim.

O regresso

Só a dor vincada dos cotovelos no corrimão me trouxe de volta ao barco, de onde havia saído para me lembrar do que realmente importa e que não colocava em causa há tantos anos. Engordei a alma neste mar-alto. E ainda estou no primeiro dia, que nem um dia inteiro perfaz. São 23:02. Saí das entranhas malcheirosas do ferry que me vomitou de um espasmo. Piso terra cimentada. É o porto de Naxos. Sinto o corpo, vivo, vibrar. Fui até ao meu hotel a flutuar, o mais antigo da cidade de Chora, centro de Naxos. Em uns cinco minutos andados, estarei no Hotel Pantheon. Estou em frente à porta de entrada da velha cidade e do velho mercado. Iluminada a candeeiro, uma placa pintada a fundo branco e de fonte azul-grego dá-me as boas-vindas ao Old Market em caracteres latinos relembrando os gregos. É por aqui. Estou no caminho certo. Estou no meio de dedos brancos que são ruas de uma gruta branca que rodopia em cavernas.

Paros, penúltima paragem
Paros, penúltima paragem
Porto de Naxos
Porto de Naxos

(21 de julho de 2018, algures no mar Egeu)

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