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Pyrgos, a vila das portas fechadas | Santorini

Voltei a Pyrgos no meu segundo dia de quatro em Santorini. Subi as ruas estreitas ladeadas de branco e de portas e janelas coloridas. Gente? Muito pouca e quase menos turistas. Deixei-os em Oía, de onde fugi, não pelo calor abrasador das três da tarde, mas pelo que não reconheci da simplicidade e da genuinidade dos gregos. Tudo está aprumado à moda grega para muito receber o que é estrangeiro. Já poucos vivem ali sendo dali…

Apanhei o autocarro que me lavaria a Perissa, mas apeei-me em Pyrgos, aonde queria há muito voltar. São 16h39. Estou sentada no sopé da vila para almoçar, rodeada de pernas de cadeira verdes e de um gato.

Restaurante Kantouni mesmo de frente para mim, que acabo de apear-me do autocarro, na pracinha principal. O sítio é lindo, um bom augúrio. É um restaurante de enorme esplanada, com cadeiras de madeira de cor. Do menu, quase que podemos escolher de olhos fechados. Arrisco uma salada fria de bacalhau fresco e batata. Os gregos sabem-na toda no que diz à comida respeito, mas quanto ao bacalhau… Têm uma oferta boa de pratos gregos. E o souvlaki não falta, nem as saladas maravilhosas, com o ingrediente grego que adoro, as alcaparras! Logo a seguir ao queijo feta, claro.

Forças renovadas!

A simplicidade ainda tem morada aqui, e por vizinhos, a tranquilidade, o descanso, a calma. Vagueei, vagueei, vagueei por entre ruas que não têm mais de meio metro, algumas nem isso, falei com os comerciantes dali a viver ali. Há muito alojamento local mas nem dele se dá conta tão bem que está entrosado com os habitantes locais, sem luxúria.

Viva, que ainda não mataram Pyrgos!

Sigo caminho. Paro para deixar passar o avô com duas mulas aperaltadas para o serviço de transporte de turistas. Volto a 2004. Revivo o que ali me levou. Eu e a Paula, minha companheira de Erasmus, pusemos conversa com um babous (avô), junto à igreja que fica bem lá no cimo, porque ele tinha um pequeno burro, albardado com uma manta colorida lindíssima. Certamente para o transporte de pessoas. O velho pouco mais alto era do que o pequeno burro, de pele estalada pelo sol, olho brilhante cor de mel, sorriso aberto e de dentadura cheia de falhas. A conversa foi pouca e humilde, não fosse o nosso grego escasso e o grego do nosso velho de difícil compreensão. A Paula pergunta se pode subir e tirar uma fotografia. Sou eu a fotógrafa. Disse-lhe, em grego, o que pude:

Giagia mou exi ena afto.” GR⇒PT “A minha avó tem um desses (burro, entenda-se).

Sim, em casa da minha avó sempre houve burros, a égua Joana, e muitos outros bichos. Foi o único que encontrámos como meio de transporte animal, àquela época.

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Nas poucas esplanadas pelas quais passo, as cadeiras não albergam quase ninguém; pelo comércio tradicional, poucos os que se abeiram para apreciar o que é dali, os sabonetes, as sandalakis de pele, o olho turco adotado pelos gregos embutido em objetos de cerâmica de tons coloridos, em bijutaria, malas e um par de outros objetos. Estou livre. Aqui há ar. Posso inalar a música grega de fundo, atiçar um sorriso para os gatos que se deixam hipnotizar pelos recantos de sombra.

Bem-haja, Pyrgos!

Sento-me num cruzamento de caminhos versáteis, todos de seu meio metro de largura, um é uma rua-escada; outro uma descida de piso ondulado; outro nasce no ponto mais recatado da vila para vir desaguar ali, e dali se faz noutro em forma de arcada. Que descansada sombra.

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Não me vou daqui ainda.

A vila, pequena, chama-me para esse lado mais periférico, e por aí vou. Deixa-te ir. A arquitetura das casas brancas, com pormenores de cor, os jardins-que-são-pátios-pequenos cheios de tons a contrastar, os detalhes criativos em todo o lado demoram-me em observações vazias, ocas, tão surpreendida fico com esta maneira grega de dar uso às coisas-que-não-têm-uso-algum!, e não há melhor uso do que aquele que nos faz questionar a nossa capacidade de engenho.

Algures por aqui, aonde vejo gente dali, roupa nos estendais, aceleras com chave na ignição, prontinhas para arrancar, terraços ao rés-do-chão, chaminés que são encosto para uma sesta à sombra que elas próprias produzem, vem-me à ideia uma frase que tão maravilhosamente define o que vivo em Pyrgos, mais uma vila em que se sente que a crise também passou por ali.

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Um dia habitadas…

Há muitas casas que, um dia habitadas, não o são mais. Há portas acorrentadas por cadeados de ferrugem, portas quebradas de meia pintura, portas sem vizinhos, portas de cor em névoa. Que contas, ó porta? Quem te vê atrás de ti? O que vejo eu através de ti? Quem por entre as tuas fendas entrou?

O que visitar ao lado de Pyrgos!

Santo Wines

Vão!! Sobretudo, em hora de pôr do sol. Esta casa e fábrica de vinhos tem provas e uma esplanada mesmo na escarpa. Uma tranquilidade pura, turismos à parte. Uma vista de dar fôlego! E um gosto na boca de vinho bom!

Provem o Vinsanto, famoso licor de sobremesa feito a partir da uva seca.  Mais um néctar dos deuses… 

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