Sobre a História da Vaca

Esta história veio parar-me às mãos em finais de 2010 e nunca mais a esqueci. Tenho-a, algumas vezes, partilhado com pessoas próximas que precisam de a ouvir. E sempre que a conto sei que a conto também a mim. É grande, como tão grande é a sua lição.

Um mestre e o seu discípulo caminhavam em direção a um mosteiro. Como a noite se aproximava, o mestre sugeriu ao discípulo que ficassem atentos à primeira casa que avistassem. Pouco depois, o discípulo apercebeu-se de uma luz no alto do vale que atravessavam.
— Vamos pedir hospitalidade — declarou o mestre.
Já perto, repararam tratar-se de uma casa muito antiga. Bateram à porta e foram recebidos por um camponês.
— Que desejam?
— Procuramos alojamento para esta noite. Vamos a caminho do mosteiro. — disse o mestre.
— Então, sejam bem-vindos à nossa humilde casa. Embora não tenhamos camas, poderão descansar junto do lume — disse o camponês.
Uma vez dentro de casa, o mestre e o discípulo observaram a simplicidade com que viviam o camponês, a mulher e os dois filhos. Tinham pouco mobiliário, as suas roupas eram farrapos e a despensa estava vazia. Apesar disso, eram uma família alegre e unida.
— Digam-me uma coisa — perguntou o mestre —, como ganham a vida?
— Vou contar-vos — disse o camponês, enquanto a família comia umas fatias de queijo. — Há alguns anos, com o dinheiro que tínhamos, comprámos uma vaca. É graças a ela que subsistimos. Dá-nos tudo o que nos faz falta, como este magnífico queijo. Com leite e os seus derivados podemos alimentar-nos e ir levando a nossa vida.
Depois de um bocado à conversa, foram todos deitar-se. Na manhã seguinte, após o pequeno-almoço de leite, os convidados abandonaram a casa e seguiram o seu caminho. Quando já tinham percorrido um grande bocado, o mestre disse ao discípulo:
— Volta à casa e, quando escurecer, empurra a vaca pelo precipício que fica ali perto.
O discípulo ficou atónito. Não queria acreditar no que estava a ouvir da boca do mestre.
— Mestre, isso seria a ruína desta família. Seria o mesmo que condená-los à morte.
— Faz o que eu te digo e não percas tempo.
— Mas, mestre, eu não sei se devo…
— Não discutas comigo! — declarou o mestre. — Volta lá e atira a vaca pelo precipício. Depois vem ao meu encontro.
O discípulo, que cumpria rigorosamente a lei da obediência ao mestre, foi até à casa muito a contragosto. Cumpriu a sua missão e, ao anoitecer, empurrou a vaca pelo precipício. Voltou para junto do mestre e dirigiram-se para o mosteiro.
Anos mais tarde, quando o discípulo terminou os seus estudos e chegou a altura de abandonar o mosteiro, a primeira coisa de que se lembrou foi da família da casinha do vale. Após todos aqueles anos, não tinha passado um único dia em que não pensasse na vida desses camponeses.
Enquanto empreendia a viagem de regresso, quis aproximar-se do vale para ver com os seus próprios olhos as consequências da sua ação. À medida que se acercava da casa começou a aperceber-se de que as coisas tinham mudado muito, tanto que teve a surpresa de deparar com uma habitação praticamente nova. A estrutura era a mesma, se bem que mais bonita, com mais luz, mais cores, rodeada de um bonito jardim e de uma pequena horta. o discípulo, que agora já era mestre, imaginou que pertenceria a outras pessoas.
Bateu à porta e, com o coração aos saltos, esperou que a abrissem. O camponês que veio abrir era parecido com aquele outro de que se lembrava, um pouco mais gordo e mais velho.
— Desculpe — disse o antigo discípulo —, o senhor é a pessoa que vivia aqui há alguns anos quando por cá passaram um mestre e um discípulo, pedindo alojamento?
— Claro, estou agora a lembrar-me, sim… Como é que o senhor sabe?
— Eu era o discípulo, e agora que estou de regresso à minha cidade quis cumprimentar-vos.
— Fez muito bem: as pessoas devem ser gratas.
— Esta casa mudou muito desde que cá estive. Que vos aconteceu para agora viverem tão bem?
— Vou contar-lhe tudo. Não sei se o senhor se lembra de que tínhamos uma vaca que nos proporcionava o alimento básico. Certa noite, algo inesperado aconteceu: a vaca fugiu e caiu pelo precipício. Ficámos sem ela e sem o nosso sustento. Depois do susto inicial, não desanimámos e resolvemos todos juntos seguir em frente. Lembrámo-nos de fazer muitos cestos e de os vender no mercado. Tivemos grande sucesso e desde então nunca mais parámos e, além disso, diversificámos o negócio e plantamos também flores e legumes. Embora pareça mentira, o desaparecimento da vaca foi a nossa sorte. Caso contrário, ainda estaríamos a viver só do seu leite. Aprendemos uma boa lição.
Depois de ouvir o relato, o novo mestre saiu dali bem mais aliviado. Sentiu uma imensa paz interior e, uma vez mais, reconheceu a sabedoria daquele que em tempos havia sido o seu mestre. Mas a história serviu-lhe para pensar também nas pessoas e nos seus apegos, nos seus medos e inseguranças. Raciocinou, então, da seguinte forma: «Todos nós temos uma vaca que nos proporciona alguma coisa básica para a nossa sobrevivência ou, pelo menos, acreditamos que sem ela não poderíamos viver da mesma maneira. Apegamo-nos e não estamos dispostos a largá-la por nada deste mundo.»
A partir desse dia, o jovem mestre contou uma e outra vez a história para que toda a gente pudesse descobrir dentro de si aquilo que é, afinal, a sua vaca particular. Para que conseguissem empurrá-la pelo precipício e viver uma vida mais plena e mais criativa.

Cantar os locais aonde vou, em especial a Grécia e tudo o que está dentro dela, rostos, caminhos, pormenores de esquina, conversas de paragem e de passagem, curiosidades de outro mundo, histórias que vivo mas não têm página, gente que vi e trago comigo, é a minha vaca largada.