Sobre mim

Sou a Catarina, fruto de muitos pedaços de todos os anos. O maior é o das histórias contadas pela minha avó materna. Tudo na vida do campo e da aldeia era motivo para as histórias mais mágicas que alguma vez conhecera. Só voltei a encontrá-las mais tarde, já estudante de Literatura. Antes de ler, conheci o mundo pela boca dela e pelo gesto do seu corpo. Usava as palavras, conjugava-as com uma mestria e um ritmo que me prenderam sempre. Não é de estranhar que esta beleza me tenha guiado. Mas hoje, que tenho a possibilidade de ir aos locais e ser eu a construir histórias a partir de um gesto, de um rosto, de um cheiro, de uma imagem, de um trejeito repetido, de um traço genuíno da realidade que me envolve, sou eu que as conto. Junto letras e palavras em escrita, como ela juntava em sons e em cadência. Tudo isto e tudo o mais são os locais que visitamos. Viajar não é entrar num avião, barco, comboio ou outro transporte e aportar em nova terra, não é transpor fronteiras físicas apenas. Viajar é observar e comungar do dia a dia dos locais aonde entramos. É ganhar a possibilidade da experiência como local, interessado nas particularidades dos cozinhados, da especiaria ao recipiente que produzira o cozinhado, na existência das festividades e crenças da terra, no petisco único do Ti Manel, … e darmos a esquecer que somos forasteiros, a eles e a nós. Fora isto que fizera com a Grécia e a Grécia comigo. Vivi lá em 2004. Voltei, depois, em 2005. E de novo em 2018. Estou lá, sempre. Há uma qualquer empatia, uma qualquer forma de viver os dias forrados de simplicidade e companheirismo, uma vontade de estar em comunidade que prende. E com isto, depois disto, no meio disto, nos entrementes, sempre e em todo o lado, uma beleza natural que emociona. Estar atento ao outro a ponto de nos despegarmos de nós e de tudo o que trazemos nas bagagens da vida. E, assim, começa outro ciclo, o que descobrimos de nós pode ser avassalador e um início para muita coisa, outra coisa. Viajar salva-nos quando nos colocamos em tábua rasa para reescrever junto do que é novo e diferente. Já não tenho a minha avó para me contar histórias. Vou seguir viajando e observando. Aqui deixo partilhada a Grécia que trago dentro e aqui abro todo o mundo por viver.
(Crédito da foto: Alexandre Paiva, querido amigo do CRASF, companheiros de muitas caminhadas)
Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *